
__Eu estava no mínimo chocada com as últimas palavras dele. Não fazia qualquer sentido, mas parte de mim dizia que não era impossível. Não podemos dizer “ele não é disso”, nem de pessoas que conhecemos, o que dirá de pessoas que não conhecemos.
__Blake estava em pé perto da lareira, com os braços cruzados, olhando para mim com uma expressão vazia, sem qualquer tipo de sentimento. Eu sentia medo, apenas isso. Nada mais, nada menos. O puro e simples medo. Eu não sabia o que ele poderia fazer comigo, não sabia o que faria. Mas minha mente gritava para que eu saísse dali. Dei um passo para trás, com relutância, depois outro, e mais um. Sempre com os olhos fixos em um Blake imóvel que a qualquer instante poderia correr até mim. Olhei rapidamente para minha bolsa, e estendendo a mão eu a peguei, continuando com os passos lentos para trás. A porta de madeira se chocou com minhas gostas e eu suspirei com o susto. Minha mão esquerda estava atrás de meu próprio corpo, tateando a madeira escura em busca da maçaneta. Encontrei, fechei os dedos nela e abaixei o metal.
__O corredor do prédio estava iluminado, o que me tranqüilizou um pouco, mas o silencio incomodava. Era como estar inteiramente sozinha com um homem que, de uma forma ou de outra, acabara de declarar que matou alguém. Andei metade do corredor e parei diante das portas de um elevador. Logo apertei o botão e fiquei mudando o olhar, hora para o painel luminoso que indicava que o elevador estava subindo, hora para a porta do apartamento que eu deixara aberta. Por um momento percebi que não fazia idéia de que andar estávamos. Olhei novamente para o apartamento e Blake estava em pé, recostado no batendo da porta, me olhando de longe. Foi nesse momento que eu percebi, que embora o corredor fosse consideravelmente longo, não havia nenhuma outra porta nele. O medo voltou a me dominar. O corredor terminava em uma grande parede de vidro, proporcionando uma bela vista da Nova York noturna.
__- Você não deveria ir embora sozinha tão tarde. – A voz dele me assustou.
__- Tudo bem. Sei me cuidar. – Eu disse, com a voz trêmula.
__- Espere amanhecer pelo menos, e eu mesmo te levo. – Ainda parado ao longe. Era como se ele não quisesse se aproximar de mim, embora fosse eu que tivesse motivos para querer isso.
__- Não. – A minha voz saiu mais aguda do que eu queria.
__- Esqueceu os livros. – Ele olhou para dentro do apartamento por um instante.
__- Ah. É. Seria legal se você pudesse me levar eles essa noite, na universidade. – A lentidão do elevador me incomodava. Quão alto podíamos estar?
__- Como qui... – Ele parou de falar. Seus olhos agora estavam mais abertos, quase como uma expressão de surpresa, embora todos os outros pontos do seu rosto estivessem imóveis.
__O mais estranho é que ele não parecia estar olhando para mim. Parece olhar além de mim, para o painel de vidro do fim do corredor. Ele desencostou na porta e deu dois passos na minha direção, sem mudar a posição do olhar.
__- Allyson, volte. Agora. – Ele andava devagar. Sua voz agora era tensa, pesada.
__Eu, por instinto, fui andando para trás. Cada passo dele para frente, era um meu para trás.
__- Não se mexa! – Quase um grito. Não me importei, continuei indo. – Allyson!
__Blake esticou a mão para o vento em um pedido mudo de “venha até aqui”. Quase ao mesmo tempo o painel de vidro estourou com um baque estridente e uma chuva de pequenos fragmentos de vidro voou na minha direção. O vidro fora quebrado pelo lado de fora, e eu devo agradecer a fantástica mistura que chamam de “vidro temperado”, que impediu grandes cacos de vidro, e me lançou apenas fragmentos minúsculos que não causaram muito estrago. Com o susto eu me encolhi, e ao voltar a olhar para frente, tudo parecia em câmera lenta. Blake agora corria na minha direção, mas eu já estava indo para trás. Eu fui puxada para a beirada e sentia o corpo inclinar para trás.
__Assim que passei a borda, minhas mãos vagaram pelo nada, procurando algo em que segurar. Não gritei. Logo abaixo do local do painel de vidro havia uma borda em pedra que circundava todo o prédio. Talvez um elemento de decoração da fachada do prédio. Não importava, segurei na borda e fiquei pendurada. Quando uma rajada forte de vento chegou até mim, olhei para baixo e me encontrei há, com certeza, mais de 22 andares a cima da portaria do prédio. Gritei.
__- Me dá a mão!
__Olhei para cima e vi Blake debruçado pelo buraco, estendendo uma das mãos para baixo. A outra segurava na borda da vidraça quebrada e eu podia ver o sangue escorrer pelos restos do vidro. Algumas pontas mortais ainda estavam presas ao piso, e se Blake se inclinasse um pouco mais, seria perfurado.
__- Feche os olhos e abaixe a cabeça.
__Fiz o que ele mandou, e apenas ouvi o som do vidro sendo quebrado, e sentindo minúsculos pedacinhos batendo em minha cabeça. Quando voltei a olhar, ele havia tirado os pedaços do piso para pode debruçar por completo. Agora ele estava deitado no chão no corredor, sobre inúmeros pedacinhos de vidro que provavelmente estavam perfurando seu peito e abdômen. A mão continuava estendida na minha direção.
__- Allyson, me dá a mão! – Disse de novo.
__- Não consigo! Se eu soltar uma das mãos, vou cair. Não consigo! – Eu estava com muito mais medo do que antes. O vento era forte e balançava meu corpo. Minhas duas mãos estavam firmes na borda de pedra, e as lagrimas que começavam a aparecer nublavam a minha visão.
__- Consegue sim! Só precisamos de um segundo. Me dá a mão!
__Olhei para o corredor atrás dele. Uma sombra vinha para perto. Uma sombra que tomava forma. A forma de meu irmão. Josh estava parado bem ao lado do corpo de Blake. As mesmas roupas do dia do acidentes, rasgadas e sujas. A expressão de puro ódio. Um enorme pedaço de vidro na mão levantada sobre Blake.
__- Não...Não... – Eu dizia em voz baixa. Não sentia mais medo de cair, agora eu tinha medo de Blake se machucar. Mas se eu soltasse, não conseguiria me segurar apenas em uma mão. Eu lutava comigo mesma, vendo Josh erguer cada vez mais a mão.
__- ME DÁ A MÃO! DROGA! – Blake gritou e no mesmo instante eu dei impulso, soltando uma das mãos da borda de pedra e segurando a mão que ele estendia. Assim que a mão dele se fechou na minha, a outra logo de juntou a primeira e ele me puxou para cima. Quando apoiei um joelho no chão do corredor, Josh não estava mais lá.
__Blake estava sentado no chão, ofegando, com as costas apoiadas na parede do corredor. Eu tremia da cabeça aos pés e olhando para trás, para a queda que me aguardava, comecei a chorar. Chorava como uma criança, e para o meu espanto, Blake esticou um braço e me puxou de encontro a ele. Eu me abracei a cintura dele, e escondi o rosto em seu peito, enquanto sentia seus dedos deslizarem pelo meu cabelo, seu coração bater rápido e sua voz sussurrava que agora estava tudo bem.
__Ficamos assim por alguns minutos, mas logo Blake começou a se levantar, me mantendo colada a ele.
__- Vamos. Não é uma boa idéia ficarmos aqui. – Ele mantinha um braço em torno dos meus ombros enquanto me guiava pelo corredor, de volta ao apartamento.
__Meu choro estava mais controlado quando ele me sentou no sofá e se ajoelhou na minha frente, apoiando a mão na lateral do meu rosto.
__- Você está bem? Se machucou?
__Balancei a cabeça para dizer que não, enquanto minha mão limpava as lagrimas do meu rosto. Eu ainda tremia, mas me sentia melhor. Olhei para Blake. Como eu imaginava, uma série de pequenos cacos de vidro estava enterrados em seu abdômen, e havia um corte grande na palma de sua mão esquerda.
__- Mas você sim. Meu Deus. – Segurei a mão ferida com cuidado, analisando se haviam cacos de vidro ali. – Blake, você precisa cuidar disso.
__- Vou cuidar, depois que souber que você está inteiramente bem.
__As palavras dele me deixaram sem graça e totalmente sem resposta.
__- Estou bem. Só assustada, mas sem ferimentos. Ai. – Gemi quando ele cutucou meu joelho direito. Levantei a barra da calça e achei um pequeno corte ali.
__- Deve ter se cortado quando eu te puxei pra cima. Desculpe. – Ele se levantou, indo remexer as portinhas do armário de mogno.
__- Desculpe? Você salvou a minha vida. De novo! Obrigada.
__Ele apoiou uma caixinha vermelha sobre a mesinha ao lado do sofá, e molhou um algodão com o liquido de um vidrinho. Reclamei com sons de dor e puxei a perna quando ele encostou o algodão no meu joelho.
__- Não seja criança. – Ele segurou minha perna no lugar e voltou a passar o algodão. Depois o deixou sobre a mesinha, e pegou um band-aid que foi perfeitamente colocado sobre o corte. – Pronto. Agora posso cuidar de mim mesmo. – Tirou uma pequena pinça da mesma caixinha, e começou a remover os cacos em seu corpo. Eu havia contado 28 caquinhos quando ele finalmente abandonou a pinça. Aplicou o mesmo liquido em outro pedaço de algodão e espalhou em todos os mínimos cortes, mas nenhum precisou de curativo. Usou o mesmo algodão para limpar a mão esquerda, que teimava em continuar sangrando. Sua expressão era de dor, mas ele nada dizia. Quando terminou de limpar o corte, pegou um rolinho de gaze e começou a enrolar de uma força bem frouxa.
__- Posso? – Não esperei resposta. Tirei o rolinho da mão dele, e comecei a enrolar a mão ferida até que estivesse bem protegida.
__- Obrigado. – Blake olhava o curativo que fiz, abrindo e fechando a mão. – Você é sempre tão azarada assim, ou hoje foi um dia especial? – Ele foi direto.
__- Bom, nos últimos três anos tem sido assim. Pode chamar de azar se quiser.
__- Ou posso perguntar quem era aquele cara. – Ele falava como se comentássemos o mais novo filme que saiu no cinema, enquanto guardava as coisas novamente na caixinha vermelha.
__- O que? – Falei por reflexo. Ele não poderia estar falando do meu irmão. O fato de eu vê-lo por aí, é apenas um truque da minha mente.
__- O cara com roupas rasgadas e uma cara de assassino. Que quebrou o painel e que te puxou pra baixo. – Fechou a caixa, e me olhou. – Que quase soltou uma estaca de vidro da minha cabeça.
__Minha boca estava aberta e eu não lembrava de quando a tinha aberto. Meus olhos estavam arregalados e eu gaguejei.
__- Você...não...ele...eu... – Fechei os olhos por um instante e balancei a cabeça com força. – Não é possível! É um truque da minha mente. Josh...Josh morreu.
__- Então faz todo o sentido. Você tem a ver com a morte do tal Josh, pelo menos na visão dele. – Ele levantou do chão apenas o necessário para se jogar no sofá ao meu lado.
__- O que está dizendo? Isso é loucura. Impossível.
__- Loucura, talvez. Impossível, não.
__- Milhões de pessoas morrem todos os dias, e eu nunca vi ninguém por aí. – Me levantei, mas sem sair do lugar.
__- Por que você não tem ligação com milhões de pessoas mortas. Espíritos só são vistos por pessoas que destruíram vidas. Você destruiu a vida desse cara, seja quem for, por isso você o vê, e por isso ele quer destruir a sua.
__- Mas, você também o viu! – Eu disse.
__- O que só significa que ele não tinha interesse em se ocultar dos outros.
__- Não entendi. – Me sentei novamente ao lado dele.
__- As vidas que destruímos, nós veremos sempre que estiverem por perto. Não há a possibilidade de se ocultarem. Mas com pessoas que não tem nada a ver, eles podem resolver se são visíveis ou não.
__- Isso é loucura... – Escondi o rosto com minhas próprias mãos. – Como você pode saber de tudo isso?
__- Shady. – Foi só o que ele disse. E então me lembrei do que ele dissera antes de tudo isso acontecer.
__- Você... – Algo ficou preso na minha garganta e eu pigarreei. – Você a matou...
__- E você, com sua mania de deduzir coisas, já imaginou que eu, provavelmente a amarrei na cama e a cortei em pedaços. – Seus olhos olhavam para o tédio em uma expressão de tédio.
__- Algo assim. – Me limitei a dizer. Ele riu.
__- Não foi nada disso. A morte da Shady foi minha culpa, mas não foi algo que eu quisesse que tivesse acontecido. – Blake virou o rosto na direção das fotografias, e seus olhos ficaram imóveis sobre a foto da irmã.
__- Vou estar sendo intrometida se perguntar o que aconteceu?
__Ele continuou olhando as fotos em silêncio, mas depois de um tempo, quando eu já iria falar novamente, ele fechou os olhos e sorriu.
__- Sim, vai. Mas eu posso responder. – Blake levantou e foi até a lareira, segurando uma das fotos entre as mãos com um cuidado extremo, como se mesmo uma brisa fosse capaz de tornar tudo em pó. – Éramos gêmeos. Nascemos em um inverno comum na Inglaterra. Nossos pais eram felizes juntos, e só ficaram mais felizes quando nascemos. Nossa família sempre viveu muito bem, então tivemos tudo o que qualquer criança pode desejar. – Blake riu, sozinho. – Uma vez, meu pai comprou um cavalo branco e prendeu um chifre brilhante na testa dele, porque a Shady queria um unicórnio.
__Eu também ri, de leve, prestando a maior atenção na história do passado misterioso de Blake.
__- Todos os anos viajamos nas férias para todo tipo de lugar. Meu pai e eu tínhamos feito o acordo de que se eu fosse bem na escola, eu poderia escolher um país novo pra irmos, até que completássemos todo o globo. – Ele olhou pra mim, com um sorriso sincero no rosto.
__- Isso é legal. – Eu disse.
__- Sim, costumava ser. Menos naquele ano... – Blake olhava agora para o fogo que crepitava na lareira. Triste. – Tínhamos ido ao Caribe, e tudo estava sendo divertido e empolgante. Nós tínhamos 17 anos. Eu queria velejar de novo, naquela tarde. Já tínhamos ficado a manhã toda no mar, mas eu queria mais. Meu pai proibiu. Disse que o mar estava agitado. Quando eles saíram, convenci Shady a ir comigo. Seria mais uma de nossas aventuras. Estava tudo correndo bem, mas o vento ficou mais rápido. As ondas ficaram mais altas e mais constantes. O veleiro não agüentou...
__Eu ouvia essa parte do relato com uma tristeza que eu não sabia bem como explicar. Os olhos de Blake brilhavam com o reflexo do fogo, mas a expressão dele era a imagem da pura dor. Ele continuou.
__- Caímos no mar. As ondas estavam fortes. Eu nadei para longe, não me importava pra que lado, mas só para longe. Eu esperava que Shady fizesse o mesmo, afinal, ela competia em nado desde criança, era ótima nadadora. Eu me afastei do veleiro sem olhar para trás. Mas... – Os punhos dele se fecharam com força, e o sangue do corte manchou a camada externa do curativo. Eu me levantei e cheguei mais perto, mas parei, receando chateá-lo com a aproximação. Seus olhos se fecharam com força, reprimindo as lembranças, mas sem parar de falar. – Shady ficou presa. Seu pé havia se enrolado nas cordas do veleiro e ela não conseguia se soltar. Ela tentou chamar a minha atenção, mas eu não olhei. Eu segui enfrente. O veleiro afundou, e minha irmã foi arrastada com ele. Shady morreu por que eu tive a idéia idiota de velejar. Minha irmã se afogou por que eu não olhei pra trás.
__Eu estava comovida. Era claro demais que Blake fazia um grande esforço para não chorar naquele momento, mas sua voz rouca o denunciava. Eu dei mais alguns passos e o abracei, sem me preocupar com qualquer reação dele. Mas para minha surpresa, Blake me abraçou novamente, com os dedos deslizando pelo meu cabelo.
__- Tudo bem. Tudo bem. – Eu não consiga dizer nada além disso, e isso não parecia o suficiente.
__- Quando meus pais souberam o que aconteceu, e a guarda costeira trouxe o corpo de Shady, meus pais me culparam. Desde o primeiro momento até hoje, eles apontaram para mim e disseram que Shady morreu por minha causa. Eu mesmo já estava me culpando, não precisava que eles também fizessem isso. Tudo ficou pior quando Shady apareceu dizendo que morreu por que eu a abandonei.
__Eu estava chorando. Em silêncio, mas estava. Eu me via no lugar de Blake, e de certa forma eu estava. Pais que o culpam, ele que se culpa, a irmã falecida que o culpa. Eu estava passando pela mesma coisa. Ficamos abraçados por um tempo que não sei dizer se foi longo ou curto, mas, com certeza, significativo. Nenhum de nós falou nada durante esse tempo. Não havia o que ser dito. Mas uma parte de mim estava aliviada. Afinal, Blake não era um assassino psicopata. Ele apenas se envolveu em um acidente. Embora ele se culpasse, e todos o culpassem, eu não via as coisas desse modo. Foi um acidente. Ele foi imprudente em velejar naquele dia, mas não foi o culpado pelo veleiro virar, nem por sua irmã ficar presa. Foi um acidente!
__Por que eu não podia ver minha própria situação desse modo também?
__Eu tremi em um espasmo quando as coisas se ligaram subitamente na minha mente. Meus acidentes não eram acidentes. Minhas visões não eram visões. Josh estava lá mesmo. Josh causou aquelas situações, e pior, continuaria causando, até conseguir o que queria. A verdade me causou pânico.
__Meu irmão estava tentando me matar!
__Blake estava em pé perto da lareira, com os braços cruzados, olhando para mim com uma expressão vazia, sem qualquer tipo de sentimento. Eu sentia medo, apenas isso. Nada mais, nada menos. O puro e simples medo. Eu não sabia o que ele poderia fazer comigo, não sabia o que faria. Mas minha mente gritava para que eu saísse dali. Dei um passo para trás, com relutância, depois outro, e mais um. Sempre com os olhos fixos em um Blake imóvel que a qualquer instante poderia correr até mim. Olhei rapidamente para minha bolsa, e estendendo a mão eu a peguei, continuando com os passos lentos para trás. A porta de madeira se chocou com minhas gostas e eu suspirei com o susto. Minha mão esquerda estava atrás de meu próprio corpo, tateando a madeira escura em busca da maçaneta. Encontrei, fechei os dedos nela e abaixei o metal.
__O corredor do prédio estava iluminado, o que me tranqüilizou um pouco, mas o silencio incomodava. Era como estar inteiramente sozinha com um homem que, de uma forma ou de outra, acabara de declarar que matou alguém. Andei metade do corredor e parei diante das portas de um elevador. Logo apertei o botão e fiquei mudando o olhar, hora para o painel luminoso que indicava que o elevador estava subindo, hora para a porta do apartamento que eu deixara aberta. Por um momento percebi que não fazia idéia de que andar estávamos. Olhei novamente para o apartamento e Blake estava em pé, recostado no batendo da porta, me olhando de longe. Foi nesse momento que eu percebi, que embora o corredor fosse consideravelmente longo, não havia nenhuma outra porta nele. O medo voltou a me dominar. O corredor terminava em uma grande parede de vidro, proporcionando uma bela vista da Nova York noturna.
__- Você não deveria ir embora sozinha tão tarde. – A voz dele me assustou.
__- Tudo bem. Sei me cuidar. – Eu disse, com a voz trêmula.
__- Espere amanhecer pelo menos, e eu mesmo te levo. – Ainda parado ao longe. Era como se ele não quisesse se aproximar de mim, embora fosse eu que tivesse motivos para querer isso.
__- Não. – A minha voz saiu mais aguda do que eu queria.
__- Esqueceu os livros. – Ele olhou para dentro do apartamento por um instante.
__- Ah. É. Seria legal se você pudesse me levar eles essa noite, na universidade. – A lentidão do elevador me incomodava. Quão alto podíamos estar?
__- Como qui... – Ele parou de falar. Seus olhos agora estavam mais abertos, quase como uma expressão de surpresa, embora todos os outros pontos do seu rosto estivessem imóveis.
__O mais estranho é que ele não parecia estar olhando para mim. Parece olhar além de mim, para o painel de vidro do fim do corredor. Ele desencostou na porta e deu dois passos na minha direção, sem mudar a posição do olhar.
__- Allyson, volte. Agora. – Ele andava devagar. Sua voz agora era tensa, pesada.
__Eu, por instinto, fui andando para trás. Cada passo dele para frente, era um meu para trás.
__- Não se mexa! – Quase um grito. Não me importei, continuei indo. – Allyson!
__Blake esticou a mão para o vento em um pedido mudo de “venha até aqui”. Quase ao mesmo tempo o painel de vidro estourou com um baque estridente e uma chuva de pequenos fragmentos de vidro voou na minha direção. O vidro fora quebrado pelo lado de fora, e eu devo agradecer a fantástica mistura que chamam de “vidro temperado”, que impediu grandes cacos de vidro, e me lançou apenas fragmentos minúsculos que não causaram muito estrago. Com o susto eu me encolhi, e ao voltar a olhar para frente, tudo parecia em câmera lenta. Blake agora corria na minha direção, mas eu já estava indo para trás. Eu fui puxada para a beirada e sentia o corpo inclinar para trás.
__Assim que passei a borda, minhas mãos vagaram pelo nada, procurando algo em que segurar. Não gritei. Logo abaixo do local do painel de vidro havia uma borda em pedra que circundava todo o prédio. Talvez um elemento de decoração da fachada do prédio. Não importava, segurei na borda e fiquei pendurada. Quando uma rajada forte de vento chegou até mim, olhei para baixo e me encontrei há, com certeza, mais de 22 andares a cima da portaria do prédio. Gritei.
__- Me dá a mão!
__Olhei para cima e vi Blake debruçado pelo buraco, estendendo uma das mãos para baixo. A outra segurava na borda da vidraça quebrada e eu podia ver o sangue escorrer pelos restos do vidro. Algumas pontas mortais ainda estavam presas ao piso, e se Blake se inclinasse um pouco mais, seria perfurado.
__- Feche os olhos e abaixe a cabeça.
__Fiz o que ele mandou, e apenas ouvi o som do vidro sendo quebrado, e sentindo minúsculos pedacinhos batendo em minha cabeça. Quando voltei a olhar, ele havia tirado os pedaços do piso para pode debruçar por completo. Agora ele estava deitado no chão no corredor, sobre inúmeros pedacinhos de vidro que provavelmente estavam perfurando seu peito e abdômen. A mão continuava estendida na minha direção.
__- Allyson, me dá a mão! – Disse de novo.
__- Não consigo! Se eu soltar uma das mãos, vou cair. Não consigo! – Eu estava com muito mais medo do que antes. O vento era forte e balançava meu corpo. Minhas duas mãos estavam firmes na borda de pedra, e as lagrimas que começavam a aparecer nublavam a minha visão.
__- Consegue sim! Só precisamos de um segundo. Me dá a mão!
__Olhei para o corredor atrás dele. Uma sombra vinha para perto. Uma sombra que tomava forma. A forma de meu irmão. Josh estava parado bem ao lado do corpo de Blake. As mesmas roupas do dia do acidentes, rasgadas e sujas. A expressão de puro ódio. Um enorme pedaço de vidro na mão levantada sobre Blake.
__- Não...Não... – Eu dizia em voz baixa. Não sentia mais medo de cair, agora eu tinha medo de Blake se machucar. Mas se eu soltasse, não conseguiria me segurar apenas em uma mão. Eu lutava comigo mesma, vendo Josh erguer cada vez mais a mão.
__- ME DÁ A MÃO! DROGA! – Blake gritou e no mesmo instante eu dei impulso, soltando uma das mãos da borda de pedra e segurando a mão que ele estendia. Assim que a mão dele se fechou na minha, a outra logo de juntou a primeira e ele me puxou para cima. Quando apoiei um joelho no chão do corredor, Josh não estava mais lá.
__Blake estava sentado no chão, ofegando, com as costas apoiadas na parede do corredor. Eu tremia da cabeça aos pés e olhando para trás, para a queda que me aguardava, comecei a chorar. Chorava como uma criança, e para o meu espanto, Blake esticou um braço e me puxou de encontro a ele. Eu me abracei a cintura dele, e escondi o rosto em seu peito, enquanto sentia seus dedos deslizarem pelo meu cabelo, seu coração bater rápido e sua voz sussurrava que agora estava tudo bem.
__Ficamos assim por alguns minutos, mas logo Blake começou a se levantar, me mantendo colada a ele.
__- Vamos. Não é uma boa idéia ficarmos aqui. – Ele mantinha um braço em torno dos meus ombros enquanto me guiava pelo corredor, de volta ao apartamento.
__Meu choro estava mais controlado quando ele me sentou no sofá e se ajoelhou na minha frente, apoiando a mão na lateral do meu rosto.
__- Você está bem? Se machucou?
__Balancei a cabeça para dizer que não, enquanto minha mão limpava as lagrimas do meu rosto. Eu ainda tremia, mas me sentia melhor. Olhei para Blake. Como eu imaginava, uma série de pequenos cacos de vidro estava enterrados em seu abdômen, e havia um corte grande na palma de sua mão esquerda.
__- Mas você sim. Meu Deus. – Segurei a mão ferida com cuidado, analisando se haviam cacos de vidro ali. – Blake, você precisa cuidar disso.
__- Vou cuidar, depois que souber que você está inteiramente bem.
__As palavras dele me deixaram sem graça e totalmente sem resposta.
__- Estou bem. Só assustada, mas sem ferimentos. Ai. – Gemi quando ele cutucou meu joelho direito. Levantei a barra da calça e achei um pequeno corte ali.
__- Deve ter se cortado quando eu te puxei pra cima. Desculpe. – Ele se levantou, indo remexer as portinhas do armário de mogno.
__- Desculpe? Você salvou a minha vida. De novo! Obrigada.
__Ele apoiou uma caixinha vermelha sobre a mesinha ao lado do sofá, e molhou um algodão com o liquido de um vidrinho. Reclamei com sons de dor e puxei a perna quando ele encostou o algodão no meu joelho.
__- Não seja criança. – Ele segurou minha perna no lugar e voltou a passar o algodão. Depois o deixou sobre a mesinha, e pegou um band-aid que foi perfeitamente colocado sobre o corte. – Pronto. Agora posso cuidar de mim mesmo. – Tirou uma pequena pinça da mesma caixinha, e começou a remover os cacos em seu corpo. Eu havia contado 28 caquinhos quando ele finalmente abandonou a pinça. Aplicou o mesmo liquido em outro pedaço de algodão e espalhou em todos os mínimos cortes, mas nenhum precisou de curativo. Usou o mesmo algodão para limpar a mão esquerda, que teimava em continuar sangrando. Sua expressão era de dor, mas ele nada dizia. Quando terminou de limpar o corte, pegou um rolinho de gaze e começou a enrolar de uma força bem frouxa.
__- Posso? – Não esperei resposta. Tirei o rolinho da mão dele, e comecei a enrolar a mão ferida até que estivesse bem protegida.
__- Obrigado. – Blake olhava o curativo que fiz, abrindo e fechando a mão. – Você é sempre tão azarada assim, ou hoje foi um dia especial? – Ele foi direto.
__- Bom, nos últimos três anos tem sido assim. Pode chamar de azar se quiser.
__- Ou posso perguntar quem era aquele cara. – Ele falava como se comentássemos o mais novo filme que saiu no cinema, enquanto guardava as coisas novamente na caixinha vermelha.
__- O que? – Falei por reflexo. Ele não poderia estar falando do meu irmão. O fato de eu vê-lo por aí, é apenas um truque da minha mente.
__- O cara com roupas rasgadas e uma cara de assassino. Que quebrou o painel e que te puxou pra baixo. – Fechou a caixa, e me olhou. – Que quase soltou uma estaca de vidro da minha cabeça.
__Minha boca estava aberta e eu não lembrava de quando a tinha aberto. Meus olhos estavam arregalados e eu gaguejei.
__- Você...não...ele...eu... – Fechei os olhos por um instante e balancei a cabeça com força. – Não é possível! É um truque da minha mente. Josh...Josh morreu.
__- Então faz todo o sentido. Você tem a ver com a morte do tal Josh, pelo menos na visão dele. – Ele levantou do chão apenas o necessário para se jogar no sofá ao meu lado.
__- O que está dizendo? Isso é loucura. Impossível.
__- Loucura, talvez. Impossível, não.
__- Milhões de pessoas morrem todos os dias, e eu nunca vi ninguém por aí. – Me levantei, mas sem sair do lugar.
__- Por que você não tem ligação com milhões de pessoas mortas. Espíritos só são vistos por pessoas que destruíram vidas. Você destruiu a vida desse cara, seja quem for, por isso você o vê, e por isso ele quer destruir a sua.
__- Mas, você também o viu! – Eu disse.
__- O que só significa que ele não tinha interesse em se ocultar dos outros.
__- Não entendi. – Me sentei novamente ao lado dele.
__- As vidas que destruímos, nós veremos sempre que estiverem por perto. Não há a possibilidade de se ocultarem. Mas com pessoas que não tem nada a ver, eles podem resolver se são visíveis ou não.
__- Isso é loucura... – Escondi o rosto com minhas próprias mãos. – Como você pode saber de tudo isso?
__- Shady. – Foi só o que ele disse. E então me lembrei do que ele dissera antes de tudo isso acontecer.
__- Você... – Algo ficou preso na minha garganta e eu pigarreei. – Você a matou...
__- E você, com sua mania de deduzir coisas, já imaginou que eu, provavelmente a amarrei na cama e a cortei em pedaços. – Seus olhos olhavam para o tédio em uma expressão de tédio.
__- Algo assim. – Me limitei a dizer. Ele riu.
__- Não foi nada disso. A morte da Shady foi minha culpa, mas não foi algo que eu quisesse que tivesse acontecido. – Blake virou o rosto na direção das fotografias, e seus olhos ficaram imóveis sobre a foto da irmã.
__- Vou estar sendo intrometida se perguntar o que aconteceu?
__Ele continuou olhando as fotos em silêncio, mas depois de um tempo, quando eu já iria falar novamente, ele fechou os olhos e sorriu.
__- Sim, vai. Mas eu posso responder. – Blake levantou e foi até a lareira, segurando uma das fotos entre as mãos com um cuidado extremo, como se mesmo uma brisa fosse capaz de tornar tudo em pó. – Éramos gêmeos. Nascemos em um inverno comum na Inglaterra. Nossos pais eram felizes juntos, e só ficaram mais felizes quando nascemos. Nossa família sempre viveu muito bem, então tivemos tudo o que qualquer criança pode desejar. – Blake riu, sozinho. – Uma vez, meu pai comprou um cavalo branco e prendeu um chifre brilhante na testa dele, porque a Shady queria um unicórnio.
__Eu também ri, de leve, prestando a maior atenção na história do passado misterioso de Blake.
__- Todos os anos viajamos nas férias para todo tipo de lugar. Meu pai e eu tínhamos feito o acordo de que se eu fosse bem na escola, eu poderia escolher um país novo pra irmos, até que completássemos todo o globo. – Ele olhou pra mim, com um sorriso sincero no rosto.
__- Isso é legal. – Eu disse.
__- Sim, costumava ser. Menos naquele ano... – Blake olhava agora para o fogo que crepitava na lareira. Triste. – Tínhamos ido ao Caribe, e tudo estava sendo divertido e empolgante. Nós tínhamos 17 anos. Eu queria velejar de novo, naquela tarde. Já tínhamos ficado a manhã toda no mar, mas eu queria mais. Meu pai proibiu. Disse que o mar estava agitado. Quando eles saíram, convenci Shady a ir comigo. Seria mais uma de nossas aventuras. Estava tudo correndo bem, mas o vento ficou mais rápido. As ondas ficaram mais altas e mais constantes. O veleiro não agüentou...
__Eu ouvia essa parte do relato com uma tristeza que eu não sabia bem como explicar. Os olhos de Blake brilhavam com o reflexo do fogo, mas a expressão dele era a imagem da pura dor. Ele continuou.
__- Caímos no mar. As ondas estavam fortes. Eu nadei para longe, não me importava pra que lado, mas só para longe. Eu esperava que Shady fizesse o mesmo, afinal, ela competia em nado desde criança, era ótima nadadora. Eu me afastei do veleiro sem olhar para trás. Mas... – Os punhos dele se fecharam com força, e o sangue do corte manchou a camada externa do curativo. Eu me levantei e cheguei mais perto, mas parei, receando chateá-lo com a aproximação. Seus olhos se fecharam com força, reprimindo as lembranças, mas sem parar de falar. – Shady ficou presa. Seu pé havia se enrolado nas cordas do veleiro e ela não conseguia se soltar. Ela tentou chamar a minha atenção, mas eu não olhei. Eu segui enfrente. O veleiro afundou, e minha irmã foi arrastada com ele. Shady morreu por que eu tive a idéia idiota de velejar. Minha irmã se afogou por que eu não olhei pra trás.
__Eu estava comovida. Era claro demais que Blake fazia um grande esforço para não chorar naquele momento, mas sua voz rouca o denunciava. Eu dei mais alguns passos e o abracei, sem me preocupar com qualquer reação dele. Mas para minha surpresa, Blake me abraçou novamente, com os dedos deslizando pelo meu cabelo.
__- Tudo bem. Tudo bem. – Eu não consiga dizer nada além disso, e isso não parecia o suficiente.
__- Quando meus pais souberam o que aconteceu, e a guarda costeira trouxe o corpo de Shady, meus pais me culparam. Desde o primeiro momento até hoje, eles apontaram para mim e disseram que Shady morreu por minha causa. Eu mesmo já estava me culpando, não precisava que eles também fizessem isso. Tudo ficou pior quando Shady apareceu dizendo que morreu por que eu a abandonei.
__Eu estava chorando. Em silêncio, mas estava. Eu me via no lugar de Blake, e de certa forma eu estava. Pais que o culpam, ele que se culpa, a irmã falecida que o culpa. Eu estava passando pela mesma coisa. Ficamos abraçados por um tempo que não sei dizer se foi longo ou curto, mas, com certeza, significativo. Nenhum de nós falou nada durante esse tempo. Não havia o que ser dito. Mas uma parte de mim estava aliviada. Afinal, Blake não era um assassino psicopata. Ele apenas se envolveu em um acidente. Embora ele se culpasse, e todos o culpassem, eu não via as coisas desse modo. Foi um acidente. Ele foi imprudente em velejar naquele dia, mas não foi o culpado pelo veleiro virar, nem por sua irmã ficar presa. Foi um acidente!
__Por que eu não podia ver minha própria situação desse modo também?
__Eu tremi em um espasmo quando as coisas se ligaram subitamente na minha mente. Meus acidentes não eram acidentes. Minhas visões não eram visões. Josh estava lá mesmo. Josh causou aquelas situações, e pior, continuaria causando, até conseguir o que queria. A verdade me causou pânico.
__Meu irmão estava tentando me matar!
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Continua...
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