
__Algumas pessoas passam por muitos contra-tempos, outras sofrem de má sorte ou azar, e poucas experimentam situações que não podem ser classificadas nessas categorias. Eu, com certeza, sou uma dessas poucas pessoas.
__Meu nome é Allyson Carter, Ally para os amigos e familiares. Tenho 19 anos e estou no segundo ano do curso de história da Universidade LaTiere, em Nova York. Moro com meus pais em uma casa comum, em um bairro comum de pessoas comuns. Minha principal característica é uma compulsão por literatura. Toda história começa com algum fato traumático, certo? No meu caso, aconteceu há 3 anos.
__Eu costumava ser a filha mais nova, e meu irmão Josh era o filho preferido. Cursava medicina na Universidade, jogava baseball na liga juvenil, tinha ótimas notas, um excelente emprego no hospital e dezenas de amigos que aos finais de semana invadiam nossa casa com musica alta e bebida. Josh me irritava com toda sua perfeição. Nunca nos demos bem. Nunca. Há algum tempo ouvi a história de que quando eu tinha alguns dias de vida, Josh me tirou do berço e me colocou no lixo. Meus pais foram me pegar, claro, e quando questionaram os motivos de Josh, ele disse: “Não quero esse ratinho em casa.”
__Não brigávamos. Seria inútil e não levaria a nada. Então passamos nossas vidas nos ignorando, evitando ao máximo qualquer aproximação ou diálogo. Até aquela noite, três anos atrás:
__- Mas mãe, todos os meus amigos estarão lá. Como posso ser a única a ficar de fora? Você sempre diz que tenho poucos amigos, mas me impede de arrumar novos! – Eu estava arrumada para sair para a festa mais badalada do ano em minha pequena escola, mas aparentemente eu não poderia ir.
__- Ally, eu não sei nada sobre isso. Onde é? Não conheço os pais da garota. E como pretende chegar até lá? – Minha mãe dizia.
__- Não é longe, mãe. E claro que conhece os pais dela. Os conheceu na feira de ciências semestre passado. Vocês poderiam me levar até lá.
__- Allyson, se permitirmos que vá, terá que fazer muita coisa em casa para retribuir. – Meu pai começava a falar, sem largar seu precioso jornal.
__- Farei, pai. Farei tudo o que me pedirem. – Eu começava a ficar animada. Foi quando meu irmão desceu chacoalhando as chaves da moto.
__- Josh. – Meu pai chamou. – Você vai levar sua irmã até essa tal festa.
__- O que? – Acho que foi a primeira vez nos meus, até então, 16 anos, que eu e Josh falávamos a mesma coisa, ao mesmo tempo.
__- Pai, vou sair com uns amigos. – Josh argumentava.
__- Seus amigos podem esperar, Josh.
__- Não, não podem. Temos reservas com horários.
__- Josh, querido, faça este favor á nós. – Minha mãe com seu jeito doce e mimado que sempre usava com o filho predileto.
__Josh atendeu à vontade de nossos pais e me levou a festa. Antes de sairmos ligou para os amigos e disse que não poderia ir, então sussurrou coisas que mais ninguém pode ouvir. Subi em sua moto e os segurei pelos ombros. Sua direção costumava ser rápida, mas desta vez estava pior. Chegamos até a festa e eu desci da moto.
__- Então...Obrigada pela carona.
__- Eu fui obrigado.
__Nem tive tempo de retrucar seu mau humor, ele já estava disparando para longe da casa. Ora, o problema era dele então. Josh não iria estragar minha noite perfeita. Entrei na festa e lá fiquei até cerca de 2 horas depois, quando meus pais ligaram. Eu podia ouvir minha mãe chorando aos gritos no fundo, e a voz tremula e grave de meu pai me dizendo:
__- Josh sofreu um acidente de moto.
__Um amigo me deu carona até o hospital que meu pai havia indicado, e lá eu fiquei sabendo dos fatos. Josh andava rápido e em um cruzamento quando o semáforo mostrou a luz vermelha, ele não parou, quando um caminhão daqueles que se usa em construções para misturar concreto vinha pelo cruzamento. Meu irmão foi atingido em cheio e jogado vários metros em grande velocidade até que parou com os restos da moto por cima dele.
__Meu irmão mais velho, Josh Carter, aos 23 anos de idade, e a duas semanas de sua formatura na universidade, com um futuro brilhante pela frente, faleceu naquela noite porque eu não podia perder a fútil festa colegial de pessoas falsas que eu no fundo detestava.
__Já se passaram 3 anos desde sua morte, mas as coisas mudaram pouco. Meus pais jamais verbalizaram que me culpam pelo acidente, mas eu sei que culpam. Sei pelos olhares repreensivos sem motivo aparente. Sei pelos olhos chorosos de minha mãe sempre que olha para mim. Sei pelas comparações que meu pai sempre faz entre eu e Josh. E sei porque eu mesma me culpo por isso, então por que eles não culpariam?
__O quarto de Josh foi trancado e permanece exatamente como ele o deixou há 3 anos. Seus velhos amigos ainda vêm até aqui no aniversário de sua morte trazer flores para meus pais e para me olhar “de canto”. Eu, por minha vez, terminei o colegial, passei para a universidade em boa colocação, e nestes dois anos de curso tenho me saído muito bem. Tenho um emprego de meio-expediente no banco central e bons amigos com quem posso contar. Me tornei tudo o que Josh era, mas nem assim recebi a mesma atenção que ele.
__Eu disse que poucas coisas mudaram. Só houve uma coisa que passou a ser habitual e que me perturba de forma assustadora.
__Sempre fui cuidadosa. Olho bem antes de atravessar as ruas, desço escadas olhando os degraus para prevenir quedas, nunca me debruço em janelas ou sacadas, todas essas pequenas coisas que significam segurança. Mas desde a morte de Josh que incontáveis situações me causaram ferimentos que tive sorte em sair viva. Conhecidencia? Talvez seja. O que me assusta é que em todas essas situações, quando me recupero do susto e dou uma olhada em volta, entre as pessoas que me olham assustadas, tenho a vaga impressão de ver meu irmão parado a alguns metros, me olhando de longe, porém quando eu pisco e volto a olhá-lo, não há nada. Costumo atribuir isso ao susto dos acidentes e o trauma de ser subliminarmente responsável pela morte dele.
__Bom, as férias de verão acabaram agora. Estou voltando para a universidade. Hoje é o primeiro dia de aula do segundo semestre e estou aqui sentada no banco do carona do carro de minha melhor amiga, sorrindo educadamente sobre qualquer que seja o assunto que ela esteja tentando me repassar de uma forma tão animada.
__- Ally? – Jude dizia pela, talvez, enésima vez. – ALLYSON!
__- O que foi? Não precisa gritar. – Eu colocava minha bolsa no ombro, seguindo com ela do estacionamento até as escadas da entrada.
__- Parece que preciso. Estou de chamando faz tempo e você aí com cara de nada. – Os saltos do sapato novo de Jude ecoavam na escada. Ao menos descobri qual era o assunto que ela falava tanto no carro. Provavelmente me contava sobre suas compras no verão.
__- Que tipo de expressão é “cara de nada”? – Passei o pequeno cartão no leitor óptico e a catraca da universidade emitiu um rápido “bip”, e eu passei.
__- Tanto faz. Eu estava dizendo, Ally, que mal posso esperar para ver os alunos novos!
__- Da nossa turma? – Perguntei, focando os olhos no longo corredor dos fundos da universidade.
__- Também. Mas de toda universidade. Não está animada também? Pode achar um garoto incrível pra você.
__- É. – Lá ia eu, me desligando de novo.
__- “É”. Allyson, acorda menina. O que te deu?
__- O aniversário da morte do Josh é na próxima semana. – Fazíamos a curva perto dos banheiros, chegando ao pátio principal.
__- Eu tinha me esquecido. Sinto muito.
__- Não se preocupe. Afinal, onde será nossa sala este semestre? – Olhei em volta. Havia algumas salas no andar térreo da universidade, embora houvessem vários outros andares de salas.
__- Na mesma sala do semestre passado.
__Ótimo. Ainda estávamos no térreo. Isso era bom. Não gosto da idéia de ter que ficar usando escadas entre as aulas. O que me chocava agora era que a desligada e fútil Jude Harrison sabia de algo que aparentemente ninguém sabia.
__- Como sabia sobre a sala? – Entravamos cumprimentando os poucos amigos que já haviam chegado.
__- Eu perguntei na secretaria na semana passada quando trouxe os papéis da matricula do semestre. – Jude abandonava sua bolsa na cadeira ao lado da minha.
__- Ah, droga. – Bati em minha própria testa.
__- O que foi?
__- Os papéis. Eu não entreguei. – Mexia freneticamente em minha bolsa, entre os livros.
__- Então vai. Hoje é o ultimo dia pra isso.
__- Caso a aula comece, por favor assine meu nome na chamada.
__Não fiquei para ouvir a resposta de Jude. Saí correndo da sala antes que o professor me pegasse saindo no meio de sua aula. No caminho para a secretária encontrei conhecidos de outros cursos e fui breve nos “oi”, “como vai?”.
__A secretaria da LaTiere ficava aberta diante da praça de alimentação, e uma pequena fila ocupava o caminho entre as mesas, com alunos que como eu não haviam entregado a papelada exigida. Com minha sorte a fila foi rápida e logo estava livre dos papéis. Ia saindo da praça de alimentação quando, na curva me choquei com alguém.
__- Nossa. Desculpa. – Fui logo dizendo.
__- Tudo bem. Não machuquei você? – A voz de um homem.
__- Não. – Olhei enfim para ele. Se me conheço, fiquei com as bochechas vermelhas imediatamente. Diante de mim estava um rapaz bem alto, teria mais de 1 metro e 90, talvez quase chegasse á 2, o cabelo loiro era curto e estava bagunçado e molhado, coisa que fazia alguns fios mais compridos atrapalharem a visão de um par de olhos verdes. O garoto se vestia casualmente com um jeans escuro e uma camiseta preta sem desenhos que não escondiam braços muito bem malhados. Diante do meu silêncio, ele continuou falando.
__- Certo. Então tenha mais cuidado por onde anda. – A voz dele era grave, masculina, mas ao mesmo tempo era baixa, quase um sussurro. Por alguma estranha razão me lembrei daquele filme em que o telefone toca e uma voz exatamente assim diz que você vai morrer em sete dias.
__- Como é?
__- Ficar fazendo curvas sem olhar por onde anda...Você vai acabar machucando alguém, Criança.
__Pronto! O príncipe encantado se mostrou um grande idiota em duas frases.
__- Pareço uma criança pra você? – Cruzei os braços.
__- Ahn...Parece, por isso te chamei assim.
__- Você é um idiota. – Contornei o garoto e segui pelo corredor. Ele aparentemente me seguiu.
__- Pode me ajudar a achar minha sala?
__- Você não me conhece, me trata com grosseria e me pede ajuda? – Continuei andando. – É bipolar por acaso?
__- Não. Só quero ajuda.
__Parei e olhei pra ele. Droga, aquele olhos verdes estavam influenciando muito.
__- Está bem. Que curso faz?
__- Química. – Ele respondeu, sorrindo. Meu deus, que sorriso...
__- Primeiro ano?
__- Quarto.
__- Veio transferido? – Perguntei.
__- Acho que esse é o único jeito de um aluno novo estar em um ano que não seja o primeiro.
__Virei e voltei a andar. Ele correu e me segurou pelo braço.
__- Espera. Vamos, admita, sua pergunta foi desnecessária.
__- Você deixa péssimas primeiras impressões. Vem logo. – Comecei a subir a escada para o primeiro andar. – Qual seu nome?
__- Por que quer saber? – O garoto olhava em volta cada pedaço das paredes. Uma das mãos segurava a alça da mochila no ombro, e a outra se escondia no bolso da calça jeans.
__Aproveitei suas distrações para olhá-lo melhor. Não havia notado mas uma pequena argola de prata balançava em sua orelha esquerda. O garoto tinha jeito daqueles caras que bancam os machões o tempo todo.
__- Eu só queria saber. Não precisa dizer se não quiser.
__- Claro que não preciso. – A arrogância dele começava a me irritar.
__- Pronto. Sua sala é essa. Não vá esquecer e se perder por aí.
__- Certo. – Notei que ele já abria a porta.
__- Não vai me agradecer?
__- Por me trazer até a sala de aula?! Não faz sentido agradecer por isso. – Ele parecia verdadeiramente chocado com a idéia de me agradecer.
__- Divirta-se no primeiro dia. – Dei as costas e comecei a voltar pelo corredor até as escadas.
__- Blake. – Ele gritou.
__- O que? – Me virei, confusa.
__- O meu nome. – Não disse mais nada. Entrou na sala e fechou a porta.
__Fiquei parada no corredor ainda alguns segundos, e voltei até a porta da sala dele, onde uma folha de papel listava os alunos da sala em ordem alfabética. Corri os olhos pelos nomes até chegar à letra B, e não foi difícil achar o único garoto com esse nome.
__- Blake Ryder... – Sussurrei sozinha no corredor.
__A porta se abriu e Blake estava bem ali.
__- Ainda aqui? – Me perguntou. Eu estava envergonhada e surpresa, por isso não respondi. – Já sei. Não agüentou de vontade de me ver de novo. Como você é fácil. Dez minutos de conversa com um estranho e já fica seguindo o cara?
__- Quem você acha que é pra... – Me interrompi quando ele se aproximou e estendeu o braço perto da minha cabeça. O tipo de pose que os homens usam pra prender uma mulher entre seus braços e a parede para mantê-las lá.
__- 7. Gosto desse número. – Ele sorriu, se afastou e entrou novamente na sala.
__Fique ali, totalmente confusa. O que tinha sido aquilo? Me virei e vi que a lista com os nomes estava bem atrás de mim, e que Blake Ryder era o sétimo da lista. Fiquei imediatamente irritada. Que desgraçado. Fazer toda aquela pose apenas pra olhar seu próprio nome da lista de chamada? Ele podia ter pedido que eu saísse da frente, ou sei lá, mas não tinha porque me segurar daquele jeito!
__Segui o corredor até as escadas e desci para minha própria sala. Entrei e sentei em meu lugar, batendo os livros para acompanhar o resto da aula. Jude logo me passou um pedaço de papel dobrado:
__ “O que aconteceu lá fora?” – Dizia a letra de Jude.
__ “Alunos novos são uns imbecis!!!” – Rabisquei com raiva e devolvi o bilhete.
__Meu nome é Allyson Carter, Ally para os amigos e familiares. Tenho 19 anos e estou no segundo ano do curso de história da Universidade LaTiere, em Nova York. Moro com meus pais em uma casa comum, em um bairro comum de pessoas comuns. Minha principal característica é uma compulsão por literatura. Toda história começa com algum fato traumático, certo? No meu caso, aconteceu há 3 anos.
__Eu costumava ser a filha mais nova, e meu irmão Josh era o filho preferido. Cursava medicina na Universidade, jogava baseball na liga juvenil, tinha ótimas notas, um excelente emprego no hospital e dezenas de amigos que aos finais de semana invadiam nossa casa com musica alta e bebida. Josh me irritava com toda sua perfeição. Nunca nos demos bem. Nunca. Há algum tempo ouvi a história de que quando eu tinha alguns dias de vida, Josh me tirou do berço e me colocou no lixo. Meus pais foram me pegar, claro, e quando questionaram os motivos de Josh, ele disse: “Não quero esse ratinho em casa.”
__Não brigávamos. Seria inútil e não levaria a nada. Então passamos nossas vidas nos ignorando, evitando ao máximo qualquer aproximação ou diálogo. Até aquela noite, três anos atrás:
__- Mas mãe, todos os meus amigos estarão lá. Como posso ser a única a ficar de fora? Você sempre diz que tenho poucos amigos, mas me impede de arrumar novos! – Eu estava arrumada para sair para a festa mais badalada do ano em minha pequena escola, mas aparentemente eu não poderia ir.
__- Ally, eu não sei nada sobre isso. Onde é? Não conheço os pais da garota. E como pretende chegar até lá? – Minha mãe dizia.
__- Não é longe, mãe. E claro que conhece os pais dela. Os conheceu na feira de ciências semestre passado. Vocês poderiam me levar até lá.
__- Allyson, se permitirmos que vá, terá que fazer muita coisa em casa para retribuir. – Meu pai começava a falar, sem largar seu precioso jornal.
__- Farei, pai. Farei tudo o que me pedirem. – Eu começava a ficar animada. Foi quando meu irmão desceu chacoalhando as chaves da moto.
__- Josh. – Meu pai chamou. – Você vai levar sua irmã até essa tal festa.
__- O que? – Acho que foi a primeira vez nos meus, até então, 16 anos, que eu e Josh falávamos a mesma coisa, ao mesmo tempo.
__- Pai, vou sair com uns amigos. – Josh argumentava.
__- Seus amigos podem esperar, Josh.
__- Não, não podem. Temos reservas com horários.
__- Josh, querido, faça este favor á nós. – Minha mãe com seu jeito doce e mimado que sempre usava com o filho predileto.
__Josh atendeu à vontade de nossos pais e me levou a festa. Antes de sairmos ligou para os amigos e disse que não poderia ir, então sussurrou coisas que mais ninguém pode ouvir. Subi em sua moto e os segurei pelos ombros. Sua direção costumava ser rápida, mas desta vez estava pior. Chegamos até a festa e eu desci da moto.
__- Então...Obrigada pela carona.
__- Eu fui obrigado.
__Nem tive tempo de retrucar seu mau humor, ele já estava disparando para longe da casa. Ora, o problema era dele então. Josh não iria estragar minha noite perfeita. Entrei na festa e lá fiquei até cerca de 2 horas depois, quando meus pais ligaram. Eu podia ouvir minha mãe chorando aos gritos no fundo, e a voz tremula e grave de meu pai me dizendo:
__- Josh sofreu um acidente de moto.
__Um amigo me deu carona até o hospital que meu pai havia indicado, e lá eu fiquei sabendo dos fatos. Josh andava rápido e em um cruzamento quando o semáforo mostrou a luz vermelha, ele não parou, quando um caminhão daqueles que se usa em construções para misturar concreto vinha pelo cruzamento. Meu irmão foi atingido em cheio e jogado vários metros em grande velocidade até que parou com os restos da moto por cima dele.
__Meu irmão mais velho, Josh Carter, aos 23 anos de idade, e a duas semanas de sua formatura na universidade, com um futuro brilhante pela frente, faleceu naquela noite porque eu não podia perder a fútil festa colegial de pessoas falsas que eu no fundo detestava.
__Já se passaram 3 anos desde sua morte, mas as coisas mudaram pouco. Meus pais jamais verbalizaram que me culpam pelo acidente, mas eu sei que culpam. Sei pelos olhares repreensivos sem motivo aparente. Sei pelos olhos chorosos de minha mãe sempre que olha para mim. Sei pelas comparações que meu pai sempre faz entre eu e Josh. E sei porque eu mesma me culpo por isso, então por que eles não culpariam?
__O quarto de Josh foi trancado e permanece exatamente como ele o deixou há 3 anos. Seus velhos amigos ainda vêm até aqui no aniversário de sua morte trazer flores para meus pais e para me olhar “de canto”. Eu, por minha vez, terminei o colegial, passei para a universidade em boa colocação, e nestes dois anos de curso tenho me saído muito bem. Tenho um emprego de meio-expediente no banco central e bons amigos com quem posso contar. Me tornei tudo o que Josh era, mas nem assim recebi a mesma atenção que ele.
__Eu disse que poucas coisas mudaram. Só houve uma coisa que passou a ser habitual e que me perturba de forma assustadora.
__Sempre fui cuidadosa. Olho bem antes de atravessar as ruas, desço escadas olhando os degraus para prevenir quedas, nunca me debruço em janelas ou sacadas, todas essas pequenas coisas que significam segurança. Mas desde a morte de Josh que incontáveis situações me causaram ferimentos que tive sorte em sair viva. Conhecidencia? Talvez seja. O que me assusta é que em todas essas situações, quando me recupero do susto e dou uma olhada em volta, entre as pessoas que me olham assustadas, tenho a vaga impressão de ver meu irmão parado a alguns metros, me olhando de longe, porém quando eu pisco e volto a olhá-lo, não há nada. Costumo atribuir isso ao susto dos acidentes e o trauma de ser subliminarmente responsável pela morte dele.
__Bom, as férias de verão acabaram agora. Estou voltando para a universidade. Hoje é o primeiro dia de aula do segundo semestre e estou aqui sentada no banco do carona do carro de minha melhor amiga, sorrindo educadamente sobre qualquer que seja o assunto que ela esteja tentando me repassar de uma forma tão animada.
__- Ally? – Jude dizia pela, talvez, enésima vez. – ALLYSON!
__- O que foi? Não precisa gritar. – Eu colocava minha bolsa no ombro, seguindo com ela do estacionamento até as escadas da entrada.
__- Parece que preciso. Estou de chamando faz tempo e você aí com cara de nada. – Os saltos do sapato novo de Jude ecoavam na escada. Ao menos descobri qual era o assunto que ela falava tanto no carro. Provavelmente me contava sobre suas compras no verão.
__- Que tipo de expressão é “cara de nada”? – Passei o pequeno cartão no leitor óptico e a catraca da universidade emitiu um rápido “bip”, e eu passei.
__- Tanto faz. Eu estava dizendo, Ally, que mal posso esperar para ver os alunos novos!
__- Da nossa turma? – Perguntei, focando os olhos no longo corredor dos fundos da universidade.
__- Também. Mas de toda universidade. Não está animada também? Pode achar um garoto incrível pra você.
__- É. – Lá ia eu, me desligando de novo.
__- “É”. Allyson, acorda menina. O que te deu?
__- O aniversário da morte do Josh é na próxima semana. – Fazíamos a curva perto dos banheiros, chegando ao pátio principal.
__- Eu tinha me esquecido. Sinto muito.
__- Não se preocupe. Afinal, onde será nossa sala este semestre? – Olhei em volta. Havia algumas salas no andar térreo da universidade, embora houvessem vários outros andares de salas.
__- Na mesma sala do semestre passado.
__Ótimo. Ainda estávamos no térreo. Isso era bom. Não gosto da idéia de ter que ficar usando escadas entre as aulas. O que me chocava agora era que a desligada e fútil Jude Harrison sabia de algo que aparentemente ninguém sabia.
__- Como sabia sobre a sala? – Entravamos cumprimentando os poucos amigos que já haviam chegado.
__- Eu perguntei na secretaria na semana passada quando trouxe os papéis da matricula do semestre. – Jude abandonava sua bolsa na cadeira ao lado da minha.
__- Ah, droga. – Bati em minha própria testa.
__- O que foi?
__- Os papéis. Eu não entreguei. – Mexia freneticamente em minha bolsa, entre os livros.
__- Então vai. Hoje é o ultimo dia pra isso.
__- Caso a aula comece, por favor assine meu nome na chamada.
__Não fiquei para ouvir a resposta de Jude. Saí correndo da sala antes que o professor me pegasse saindo no meio de sua aula. No caminho para a secretária encontrei conhecidos de outros cursos e fui breve nos “oi”, “como vai?”.
__A secretaria da LaTiere ficava aberta diante da praça de alimentação, e uma pequena fila ocupava o caminho entre as mesas, com alunos que como eu não haviam entregado a papelada exigida. Com minha sorte a fila foi rápida e logo estava livre dos papéis. Ia saindo da praça de alimentação quando, na curva me choquei com alguém.
__- Nossa. Desculpa. – Fui logo dizendo.
__- Tudo bem. Não machuquei você? – A voz de um homem.
__- Não. – Olhei enfim para ele. Se me conheço, fiquei com as bochechas vermelhas imediatamente. Diante de mim estava um rapaz bem alto, teria mais de 1 metro e 90, talvez quase chegasse á 2, o cabelo loiro era curto e estava bagunçado e molhado, coisa que fazia alguns fios mais compridos atrapalharem a visão de um par de olhos verdes. O garoto se vestia casualmente com um jeans escuro e uma camiseta preta sem desenhos que não escondiam braços muito bem malhados. Diante do meu silêncio, ele continuou falando.
__- Certo. Então tenha mais cuidado por onde anda. – A voz dele era grave, masculina, mas ao mesmo tempo era baixa, quase um sussurro. Por alguma estranha razão me lembrei daquele filme em que o telefone toca e uma voz exatamente assim diz que você vai morrer em sete dias.
__- Como é?
__- Ficar fazendo curvas sem olhar por onde anda...Você vai acabar machucando alguém, Criança.
__Pronto! O príncipe encantado se mostrou um grande idiota em duas frases.
__- Pareço uma criança pra você? – Cruzei os braços.
__- Ahn...Parece, por isso te chamei assim.
__- Você é um idiota. – Contornei o garoto e segui pelo corredor. Ele aparentemente me seguiu.
__- Pode me ajudar a achar minha sala?
__- Você não me conhece, me trata com grosseria e me pede ajuda? – Continuei andando. – É bipolar por acaso?
__- Não. Só quero ajuda.
__Parei e olhei pra ele. Droga, aquele olhos verdes estavam influenciando muito.
__- Está bem. Que curso faz?
__- Química. – Ele respondeu, sorrindo. Meu deus, que sorriso...
__- Primeiro ano?
__- Quarto.
__- Veio transferido? – Perguntei.
__- Acho que esse é o único jeito de um aluno novo estar em um ano que não seja o primeiro.
__Virei e voltei a andar. Ele correu e me segurou pelo braço.
__- Espera. Vamos, admita, sua pergunta foi desnecessária.
__- Você deixa péssimas primeiras impressões. Vem logo. – Comecei a subir a escada para o primeiro andar. – Qual seu nome?
__- Por que quer saber? – O garoto olhava em volta cada pedaço das paredes. Uma das mãos segurava a alça da mochila no ombro, e a outra se escondia no bolso da calça jeans.
__Aproveitei suas distrações para olhá-lo melhor. Não havia notado mas uma pequena argola de prata balançava em sua orelha esquerda. O garoto tinha jeito daqueles caras que bancam os machões o tempo todo.
__- Eu só queria saber. Não precisa dizer se não quiser.
__- Claro que não preciso. – A arrogância dele começava a me irritar.
__- Pronto. Sua sala é essa. Não vá esquecer e se perder por aí.
__- Certo. – Notei que ele já abria a porta.
__- Não vai me agradecer?
__- Por me trazer até a sala de aula?! Não faz sentido agradecer por isso. – Ele parecia verdadeiramente chocado com a idéia de me agradecer.
__- Divirta-se no primeiro dia. – Dei as costas e comecei a voltar pelo corredor até as escadas.
__- Blake. – Ele gritou.
__- O que? – Me virei, confusa.
__- O meu nome. – Não disse mais nada. Entrou na sala e fechou a porta.
__Fiquei parada no corredor ainda alguns segundos, e voltei até a porta da sala dele, onde uma folha de papel listava os alunos da sala em ordem alfabética. Corri os olhos pelos nomes até chegar à letra B, e não foi difícil achar o único garoto com esse nome.
__- Blake Ryder... – Sussurrei sozinha no corredor.
__A porta se abriu e Blake estava bem ali.
__- Ainda aqui? – Me perguntou. Eu estava envergonhada e surpresa, por isso não respondi. – Já sei. Não agüentou de vontade de me ver de novo. Como você é fácil. Dez minutos de conversa com um estranho e já fica seguindo o cara?
__- Quem você acha que é pra... – Me interrompi quando ele se aproximou e estendeu o braço perto da minha cabeça. O tipo de pose que os homens usam pra prender uma mulher entre seus braços e a parede para mantê-las lá.
__- 7. Gosto desse número. – Ele sorriu, se afastou e entrou novamente na sala.
__Fique ali, totalmente confusa. O que tinha sido aquilo? Me virei e vi que a lista com os nomes estava bem atrás de mim, e que Blake Ryder era o sétimo da lista. Fiquei imediatamente irritada. Que desgraçado. Fazer toda aquela pose apenas pra olhar seu próprio nome da lista de chamada? Ele podia ter pedido que eu saísse da frente, ou sei lá, mas não tinha porque me segurar daquele jeito!
__Segui o corredor até as escadas e desci para minha própria sala. Entrei e sentei em meu lugar, batendo os livros para acompanhar o resto da aula. Jude logo me passou um pedaço de papel dobrado:
__ “O que aconteceu lá fora?” – Dizia a letra de Jude.
__ “Alunos novos são uns imbecis!!!” – Rabisquei com raiva e devolvi o bilhete.
m
Continua...
m
m

Nenhum comentário:
Postar um comentário