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13 de abr. de 2010

03 - Assassino?!


__Devo ter desmaiado logo em seguida. Não me lembro exatamente disso, mas quando abri os olhos eu tava em um lugar calmo, confortável. Me mexi assustada até perceber que eu estivera, até então, deitada em um cama daqueles modelos luxuosos e fofos. Olhei em volta para um quarto grande, com móveis bem arrumados. A luz central do teto estava apagada, mas um abajur iluminava de forma sinistra. A minha direita havia um sofá escuro que não consegui definir se era de couro ou algum outro material. Atrás dele uma porta levando, ao que imaginei, uma sacada. Bem a minha frente estava uma escrivaninha com um notebook desligado, pilhas de livros e papéis desorganizadamente organizados. Uma estante guardava uma gigantesca coleção de cds e um modelo incrivelmente recente de aparelho de som. A minha esquerda havia uma porta que, estando aberta, me revelava um banheiro, e mais adiante uma outra porta, entreaberta levando ao escuro. Entre as portas, um grande guarda-roupa ocupava do chão ao teto.
__Olhei para mim mesma, ainda estava vestida com as mesmas roupas, a não ser pelos tênis, que logo encontrei ao lado da cama. Eu estava deslumbrada com o quarto, mas assustada por não saber onde eu estava. Deslizei pela lateral da cama até enfiar os pés pelos tênis e me levantar. Cheguei até a porta entreaberta, e estiquei a cabeça para fora. Um pequeno corredor dispunha mais três portas além da que eu ocupava, todas fechadas, e uma fraca luz vinda debaixo me mostrava uma escada. Em passos muito lentos e cuidadosos fui me aproximando da escada, tentando olhar para baixo. Os degraus eram de vidro grosso, levando até um brilhante piso da madeira polida. De onde eu estava, apenas via um tapete cor de vinho. O jeito era descer.
__Eu estava encolhida, assustada, e aos poucos fui descendo. Meus olhos podiam focar novas coisas agora que eu estava na metade da escada.
__Ao pé da escada ficava uma porta, a julgar pela pequena mesa logo ao lado com chaves e algumas moedas, deduzi que aquela seria a porta da frente daquele lugar. O tapete vinho se estendia por uma sala duas vezes maior que o quarto. Um estante comportava inúmeros livros de todos os tipos. Uma porta de vidro no lado oposto da sala estava aberta, mostrando pouca iluminação natural e um forte vento que balançava lindas cortinas de seda branca. Era noite. Pouco atrás da escada uma grande mesa de vidro estava decorada com um vaso de flores artificiais. Na parede à direita, bem no centro, uma lareira estava acessa, o fogo fazia a lenha estalar vez ou outra. No centro de tudo isso uma pequena mesa de vidro sustentava uma série de controles de diversos tamanhos e revistas variadas. Em torno da mesinha um jogo de sofás grandes, no elegante formato em “L”, em tecido preto. Havia alguém meio deitado, meio sentado, no sofá, de costas para a escada. Apenas o fogo da lareira iluminava o local, mas seja quem fosse estava entretido com um grosso livro.
__- Enfim acordou. – Soou alta a voz dele naquele lugar silencioso.
__- Blake? – Reconheci imediatamente a voz.
__- E quem mais poderia ser? – Blake fechou o livro, o deixando sobre a mesinha de vidro. Se levantou sem pressa. Estava de meias, logo vi o par de tênis jogados pela sala, a calça jeans escura caía um pouco na cintura e o pronto principal, ele estava sem camisa.
__- Que lugar é esse? – Tentei não olhar para o abdômen detalhadamente trabalhado.
__- Meu apartamento. – Ele cruzou os braços, em pé ao lado do sofá.
__- ISSO é um apartamento? – Olhei em volta mais uma vez. – É tão grande. – Rapidamente os relatos de Jude me vieram à mente. – Mora aqui sozinho?
__Blake ficou me encarando um tempo, antes de descruzar os braços e começar a recolher seu par de tênis e sua camisa.
__- Moro. – Simples. Grosso.
__- E sua família? Seus pais? Não sei. – Meus olhos estavam presos à ele, e eu esperava que ele não percebesse isso.
__- Inglaterra.
__- Você se mudou pra cá sozinho? – Eu estava surpresa.
__- Sim.
__- Tem como você falar mais de uma palavra de cada vez? – Eu estava ficando irritada.
__- Você faz perguntas demais. Mas me deixe fazer uma. Por que eu deveria responder sobre a minha vida para uma pessoa que eu não conheço?
__Fiquei sem reação diante da atitude dele, e o pior é que ele tinha razão. Encontrei minha bolsa e livros sobre uma cadeira e logo me dirigi até eles. Definitivamente não se podia ter uma conversa com esse garoto.
__- Me leve pra casa. Eu não pedi pra ser trazida até aqui.
__Blake se levantou com calma e indiferença.
__- Certo. Eu levo. A propósito, são quatro horas da manhã.
__- O QUE? – Parei antes de chegar à cadeira. Blake apontou um grande relógio estilizado sobre a lareira. Os ponteiros mostravam exatamente quatro horas e quinze minutos. – Ai meu Deus. Vão me matar...Meus pais... – Eu estava ficando descontrolada.
__Blake suspirou, como as pessoas suspiram quando não tem paciência para fazer ou ouvir alguma coisa, mas não querem dizer as palavras. Olhei para ele quando ele enfiou a mão no bolso da calça e tirou o meu celular, o jogando sobre o sofá mais próximo de mim.
__- Eu mandei uma mensagem para o celular da sua mãe, em seu nome, dizendo que ia dormir na casa da sua amiga Jude, para terminarem um trabalho.
__Fiquei surpresa com essa atitude. Peguei o celular do sofá e o guardei em meu próprio bolso. Havia mil coisas que eu poderia dizer agora, mas eu realmente escolhi a pior.
__- Por que?
__- Você desmaiou. Não estava machucada para ter que ir ao hospital. E apesar de metade da universidade saber quem é você, ninguém fazia a menor idéia de onde você morava. Não sou tão insensível, Allyson.
__- Ally. – Corrigi. Por que fiz isso? Me perguntei na hora. Não deixo estranhos me chamarem assim.
__- O que? – Ele perguntou.
__- Me chame de Ally. E...Obrigada, por ter mandado a mensagem, e por...me trazer para cá. – Droga, eu podia sentir que meu rosto estava esquentando.
__- Não vamos ficar eternos coleguinhas só porque eu tirei você da frente de um ônibus.
__Aparentemente, Blake era perito em destruir climas e humores. Sentia meu rosto ficar mais quente, mas agora era de raiva. Comecei a andar pela sala, evitando olhá-lo, na tentativa de me acalmar. Quando passei pela lareira, meus olhos pararam em uma fileira de porta-retratos com fotos variadas. Uma foto era de um casal numa paisagem de inverno, estavam abraçados e felizes. Na seguinte, o mesmo casal, agora um pouco mais velho, abraçava um garotinho que vestia um uniforme sujo de futebol.
__- É você? – Eu sorria.
__- E meus pais. – Não me virei para olhá-lo.
__Continuei olhando as fotos. As duas posteriores eram mais recentes, de Blake com amigos, pelo que entendi. As três últimas, por alguma razão, me incomodaram. Estavam em porta-retratos maiores e muito mais bonitos. Duas delas eram uma garota loira, bonita, de olhos claros e com corpo de modelo, que sorria para a câmera quase como um anjo. A terceira foto, sem duvida a que mais incomodava, era essa mesma garota, com Blake. Estavam sentados no chão, perto de uma árvore de natal, sorriam como bobos, ela enrolava um cachecol no pescoço dele e ele a abraçava. Só podia ser a namorada dele.
__Me virei para fazer essa pergunta à ele, mas assim que fiz isso, vi que Blake estava abrindo as cortinas da sacada, e por isso estava de costas para mim. Vi claramente a tinta preta na pele clara. Uma palavra. Um nome. Um nome de mulher.
__ “Shady”
__Falei para mim mesma.
__Estava ficando irritada novamente.
__- Linda sua namorada. Você gostar muito dela, mas por que ela não está aqui com você? – Minha voz era aguda, atropelando as palavras.
__- Namorada? – Blake abandonou as cortinas e se virou pra mim.
__- É. Só pode ser sua namorada, certo? Você tem muitas fotos dela, e aposto que esse nome tatuado aí é o nome dela.
__- Sim. É o nome dela. – Ele apontava para as fotografias. Com poucos passos ele se aproximou de mim, deslizando a mão pelo meu cabelo. – Está com ciúmes da garota, Allyson? Que menina meiga você é.
__Dei um tapa na mão dele para afastá-la de mim e disse com rispidez:
__- Não seja idiota. E guarde esse papinho pra essa sua namorada. – Saí batendo o pé pela sala, decidida a sair dali, mesmo que fosse tão tarde.
__- Mais uma coisa para a lista. Allyson Carter deduz coisas sozinha, e passa a acreditar religiosamente nessas coisas. – Ele quase ria.
__- O que disse? – Parei.
__- Você viu fotos de uma garota, e deduziu que ela era alguém importante. Viu uma foto da mesma garota abraçada à mim, e deduziu que éramos um casal. Viu um nome nas minhas costas e deduziu que era o nome dela. Ao ver o nome, deduziu também que eu a amo loucamente. A partir de tudo isso ficou incomodada o suficiente para levantar a voz pra mim.
__- Onde quer chegar?
__- Bom, de todas as suas deduções, só acertou duas. É o nome dela, e eu a amo loucamente.
__- Então sejam muito felizes, você e a tal Shady. – Novamente dei as costas.
__- Shady é a minha irmã. – Ele falou com a voz séria e grossa.
__- Como é? – Eu duvidava.
__- E está morta. – O golpe final.
__Diante da expressão de Blake eu sabia que não era mentira, que a garota era sua irmã, e que havia morrido. Minha boca se abriu para falar, mas nada saiu.
__- Como...? – Comecei a dizer, mas minha voz sumiu novamente.
__Apenas uma palavra foi o suficiente para que Blake entendesse o que eu iria perguntar.
__- Eu a matei!
__Meus olhos se abriram em total espanto e choque. Minhas mãos tremiam. Minhas pernas denunciavam que não suportariam mais o peso de meu próprio corpo. Não podia ser verdade!
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Continua...
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