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6 de abr. de 2010

02 - Acidente!


__Não o vi mais. O tal Blake. Nem naquela noite, nem no resto da semana. Parte de mim dava graças por isso, mas outra parte, com certeza a menor, queria vê-lo novamente.
__Durante toda a semana Jude apontava para cada garoto na universidade e perguntava: “É ele?”. Ainda não sei porque fiz a insanidade de contar a ela o que tinha acontecido. Jude era assim. Bastava eu olhar na direção de um homem, que ela já escolhia o vestido pro batizado de nossos filhos. E com Blake, ela ficou particularmente interessada. Ou faria de tudo para me juntar com ele, ou iria querer que ele fosse dela própria. As duas idéias me incomodavam. Blake era bonito, verdade, mas ainda sim era um imbecil arrogante.
__Era segunda-feira novamente. Exata uma semana depois que o conheci, e um dia, pra mim, sinônimo do inferno. Era o terceiro aniversário da morte de Josh.
__A manhã foi passada no cemitério. Acomodando dúzias de flores e limpando sua lápide. A tarde foi o pior, todos indo e vindo de nossa casa para dizer o quanto sentiam pela morte dele e o quanto ele ainda fazia falta. Achei ótimo quando o sol começou a se pôr, o que significava que eu deveria ir para a universidade.
__Não estava com a mínima vontade de me arrumar, então apenas vesti o jeans mais básico, o tênis mais confortável e uma blusa leve. Deixei o cabelo solto e não me preocupei com a maquiagem. Jude queria me forçar a voltar para dentro e me arrumar “decentemente”, mas eu me recusei e ela desistiu, ligando o carro e nos levando para a universidade. Saí com pressa de casa, fugindo, e não comi nada. Por algum motivo, Jude também não tinha parado para jantar. Decidimos ir para a praça de alimentação antes da aula. Estamos sentadas comendo e conversando.
__- Ally, aquele homem não para de olhar pra nós. – Jude disse, com os olhos focados além de mim.
__- Que? Que homem? – Me virei e vasculhei um local parcialmente lotado de pessoas. Não notei ninguém em particular.
__- Ali. Encostado no corrimão da rampa do pátio, de preto.
__Imediatamente meus olhos foram levados para a direção que Jude indicara. Parei por um momento sobre o corpo de academia e muito bem vestido daquele homem que sorria com o que defini como cinismo. Dei as costas e voltei a comer.
__- Blake Ryder. – Falei baixo e sem interesse.
__Assustei quando Jude bateu ambas as mãos na mesa, fazendo tudo balançar e os copos quase virarem, ficando em pé com uma expressão que misturava choque e surpresa, se é que a diferença entre as duas.
__- Aquele é ele? – Jude quase gritou.
__- Aquele é ele. – Me escondia das pessoas em volta que nos olhavam pensando se éramos loucas.
__- Ai meu Deus! Ele é LIN-DO. Allyson, como pode chamar essa perfeição humana de arrogante? – Eu não precisava olhar para cima para saber que Jude olhava, à distância, cada centímetro do corpo de Blake.
__- Se importa se voltarmos para a sala? Já terminei de comer. – Me levantei e pretendia seguir na direção da reitoria. Certo, seria uma volta maior até minha sala, mas evitaria a rampa do pátio. Mas Jude me agarrou pelo braço e puxou para o outro lado.
__- Vamos por aqui!
__- Jude, não! – Tentei pará-la, em vão.
__A pressão de Jude em se insinuar na frente de Blake foi tanta que acabou fazendo com que eu pisasse no pé dele. Não me importei e desci metade da rampa. Foi à voz dele que me parou.
__- Você pisa no pé de alguém e não se desculpa? Depois dizem que os homens é que são grossos.
__Parei e me virei. Jude estava radiante por deduzir que ficaríamos ali conversando alegremente com ele. O sorriso vencedor no rosto dele me irritava, e os braços cruzados na pose superior me incomodavam. Eu sentia uma necessidade vital de desmanchar essa pose.
__- Você não é um homem! – Falei.
__- O que? – O sorriso sumiu por completo. Venci. Mas a expressão que surgiu no rosto dele começava a me preocupar. Vamos Allyson, pense. Saia dessa sem perder.
__- Você é um muleque.
__O silêncio ficou entre nós. Jude olhava de um para outro, curiosa, interessada, não sei dizer. Blake me encarava com olhos frios e a expressão séria. Eu o encarava com indiferença, tentando esconder o receio que tinha do que ele pudesse fazer comigo.
__- Posso perguntar quantos anos você acha que eu tenho? – Ele disse, sem humor.
__- Não sei. – Cruzei os braços e minha expressão se tornou uma máscara de puro sarcasmo. Dei de ombros e revirei os olhos. – Trinta, talvez?!
__Ele não se manifestou. Era como se tivesse sido congelado de uma hora para outra. Levou certo tempo até que ele descruzasse os braços e desencostasse do corrimão, dando dois passos em nossa direção. Recuei dois passos por puro instinto, e essa minha reação pareceu divertir Blake. O canto direito de seus lábios se levantaram, naquele típico meio sorriso. A mão direita dele encontrou meus cabelos na altura dos olhos e os levou até atrás da orelha.
__- Você é uma graça, não é?! – Blake falou baixo. Logo enfiando ambas as mãos nos bolsos da calça. – Mas você errou.
__Blake passou por mim e desceu o que restava da rampa sem olhar para trás.
__- Quantos?
__- Quantos, o que? – Enfim ele parou e se virou.
__- Quantos anos você tem?
__Blake riu. Um riso baixo, mas sincero. Um riso charmoso e perigoso. Um riso convidativo.
__- Menos de trinta. Mais de trinta. Tanto faz. – Deu as costas e seguiu cruzando o pátio até a pequena escada de seis degraus que levava até o nível térreo das salas.
__Certo. Conversei com o garoto duas vezes na minha vida e a existência de Blake já me irritava além dos limites.
__- Ficou louca? – Jude quebrou meus pensamentos.
__- O que? – Estava era confusa.
__- Ele é perfeito, Allyson! – Os olhos de Jude pareciam brilhar.
__- Acho que você é que está louca. – Desci o resto da rampa e saí vagando pelo pátio com Jude atrás de mim.
__- Ele é bonito. Meu Deus, se é. Se veste bem. Aquelas roupas são de grife, então ele é rico. É misterioso, e isso o deixa charmoso. Nossa, esse homem não existe!
__- Você esqueceu de dizer que ele é um completo idiota arrogante e convencido.
__Finalmente o sinal encerrou o assunto. Me virei para a pequena escada, como todos os outros alunos que vagavam pelo pátio em suas rodinhas de amigos. Jude ficou pra trás.
__- Você não vem? – Perguntei.
__- Não. Tenho algo muito mais importante para fazer agora. Ally, pegue meu caderno na bolsa e me jogue pela janela, certo? Te vejo daqui uma hora e meia, no intervalo.
__Não fiz perguntas. Seria inútil. Jude gostava de manter seus segredos em segredo até que cada mínimo detalhe estivesse em perfeitas condições. Entre na aula e lhe passei o caderno pela janela. Na hora seguinte me concentrei na aula, e na meia hora final estava morrendo de sono. O sinal do intervalo soou e as turmas foram liberadas. Como de costume, deixei os livros na sala e rumei para as fileiras de cadeiras ao pé das escadas. Nosso lugar preferido, de onde podíamos ver tudo e todos. Eu já esperava ver Jude ali, e lá estava ela. Aparentemente encerrando uma conversa com um homem que eu não me lembrava de conhecer. O homem esboçou um educado sorriso quando me viu chegando, e logo se afastou. Tomei meu lugar nas cadeiras e Jude parecia pronta para explodir.
__- A perfeição não existe, mas a realidade é ainda melhor. – Ela disse, quase se jogando em mim.
__- Do que está falando? – Ela estava me assustando.
__- Aqui. – Jogou o caderno aberto no meu colo. Sua letra caligrafada em várias páginas. – É bom ter muitos contatos. As histórias correm.
__Passei os olhos aleatoriamente pelas palavras, sem me ater ao detalhes. Não levei muito tempo para perceber do que se tratava tudo aquilo.
__- Investigou a vida do Blake?!
__- Claro que sim. O cara é um total mistério, mas alguns sabem de umas coisas. Falei com umas 20 pessoas e está tudo aí. Leia.
__Comecei a ler os relatos que Jude havia feito, mas não cheguei nem ao final da terceira linha quando ela arrancou o caderno de minhas mãos.
__- Esqueça. Vai demorar pra ler. Eu resumo. O nome dele é Blake Ryder.
__- Sei disso.
__- Está no quarto ano de Química.
__- Também sei disso.
__- E sabe que ele mora sozinho? – Jude sorria.
__- Não. Disso não sabia. – Respondi. Vencida.
__- É o que dizem. Ninguém confirma isso, mas é o que tudo indica. Quando perguntam sobre a família dele, ele sempre responde “estão por aí”.
__- O que mais descobriu? – Comecei a me interessar.
__- Ele é incrivelmente oposto.
__- Tipo bipolar? – Perguntei.
__- Tipo dois lados de uma mesma moeda.
__- Jude, não entendi.
__- Ele tem esse jeito rebelde. Não costuma copiar a matéria ou resolver os exercícios. Mal fala com as pessoas da sala dele. Mas na semana inteira não errou absolutamente nada sobre as aulas de laboratório. E eu descobri que ele foi transferido com média nove e meio.
__- Está querendo dizer que o garoto é um total desinteressado que tira dez? – Sugeri, quase rindo.
__- Exatamente! – Jude gritou, sorrindo. – Mas tem algo que não estava nos planos.
__- O que?
__- Bom, parece que no meio da semana passada aconteceu um acidente no laboratório e quase todos ficaram sujos ou algo assim, e ele resolveu trocar de camisa, tirando a suja.
__- E qual é o problema? – Eu não via problema nenhum em um cara trocar uma roupa suja por uma limpa.
__- Uma das meninas, declaradamente interessada nele, disse ter visto uma tatuagem nas costas dele. Um nome. Um nome de mulher. – Jude sussurrava, segurando minhas mãos e se inclinando na minha direção.
__- Pode ser o nome da mãe dele. – Sugeri.
__- Ou namorada. Noiva. Esposa. – Jude arregalava os olhos a cada palavras.
__- Qual é? Está ficando paranóica. – Me levantei. Encarei Jude de longe, com as costas viradas para as escadas do primeiro andar. – Você já está fazendo suposições sobre o cara? Não sabemos nem de onde ele foi transferido.
__- Inglaterra. – A voz veio de trás de mim, de muito perto. Quase gritei com o susto. Me virei e ali estava Blake, em pé na escada, nos olhando.
__- Olha, você precisa parar com esse negócio de aparecer do nada. – Apontei o dedo para ele.
__Blake desviou os olhos de mim para Jude, e de volta pra mim.
__- Que negócio é esse de investigar a minha vida? – Ficamos sem fala. Não tínhamos como negar isso. Ele tinha me ouvido falar. Ele tinha ouvido.
__- O que você quis dizer com Inglaterra? O que tem a ver? – Tentei sair pela tangente.
__Blake suspirou e revirou os olhos, encostando um dos ombros na parede da escada, focando os olhos em mim e em Jude.
__- É de onde eu vim. Você estava falando sobre não saber de onde eu vim. Eu apenas lhe respondi.
__- Você veio da Inglaterra?! É inglês? – Eu disse.
__- As pessoas que nascem na Inglaterra costumam ser ingleses. – Lá vem o sarcasmo idiota dele de novo. – Se querem saber sobre mim, perguntem.
__- Quantos anos tem? – Perguntei diretamente, sem desviar os olhos dos olhos dele.
__- Vinte e dois. – Ele respondeu assim que falei.
__- Fala sério? – Jude se meteu.
__- Sim. Falo sério.
__Eu pretendia continuar o diálogo, ou devia chamar de questionário? Mas um grupo de homens vinha pelas escadas conversando animadamente, e começavam a falar com Blake.
__- Ryder, você vem? – Dizia um.
__- Deixa o cara aí. Ele está bem acompanhado. – Brincava outro.
__- Já vou. – Blake apenas virava o rosto para eles, sem mover nenhuma outra parte do corpo. Assim que todos desceram e passaram por nós, Blake também terminou a descida e parou diante de Jude. – Um erro em sua investigação, Jude Harrison, não sou tão anti-social. Até outra hora Allyson Carter.
__Ficamos mudas diante do jeito de Blake e não desviamos os olhos enquanto ele e seus aparentes amigos saiam pelos portões da universidade para a rua.
__- Como ele sabe os nossos nomes? – Jude perguntou, e eu não sabia responder.

__Me enfiei em minha sala o resto do intervalo. Não queria encarar Blake novamente. A situação já havia ficado desconcertante o suficiente até então. O intervalo passou e todos os alunos voltaram à suas salas. A última aula correu tranqüila, e a saída foi normal. Mas havia um problema. Um dos irmãos de Jude havia ligado e pedido o carro. Jude foi embora no meio da aula, e eu fiquei. Agora teria que ir para casa de ônibus.
__Saí pelos portões da frente, e esperava o semáforo dos carros indicar a luz vermelha para que eu atravessasse. A luz vermelha se acendeu e eu comecei a cruzar a rua. Estava na metade na travessia quando a buzina alta disparou diversas vezes, e os gritos começaram a prever o que aconteceria a seguir. Me virei apenas para ver os faróis do ônibus que vinha em minha direção sem controle. Soltei os livros que trazia nas mãos, mas não consegui correr. Algo me segurava no meio da rua. Alguém estava me segurando ali.
__- Josh...
__Eu não via ninguém, mas sentia que estava sendo segurada.
__Tudo isso levou menos de cinco segundos, e quando eu começava a ter certeza que seria o meu fim, alguém me empurrou para fora da rua.
__O ônibus bateu em um poste na esquina. Estava vazio a não ser pelo motorista que saíra ileso e agora corria para ver se não tinha ferido ninguém. Eu estava desnorteada. Olhando em volta. As pessoas se juntavam e corriam para ver o que tinha acontecido, mas tudo estava mudo para mim. Eu via as pessoas falando, mas eu não ouvia. Meus olhos pararam no poste onde o ônibus acabara de bater. Alguém me olhava dali. Alguém que não se mexia, nem falava. Alguém que não devia estar ali. Pisquei, e esse alguém sumiu. O som voltava aos poucos. As vozes estavam longe, muito longe, e aos poucos ficavam mais altas. Alguém estava falando comigo. Perguntava se eu estava bem. A voz foi ficando mais alta. Dizia meu nome. Mais alto. Mais alto.
__- ALLYSON!
__Virei o rosto e me deparei com os olhos verdes de Blake.
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Continua...
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