
__As poucas horas que restavam daquela noite foram passadas em um estranho clima de lembranças tristes, medo e compreensão. Blake se sentou no chão, olhando o fogo da lareira, e eu me sentei ao seu lado. Falei sobre meu irmão, como éramos juntos, e sobre sua morte. Blake me falou sobre os motivos de eu ver Josh por aí, e dele querer me matar.
__Josh me culpava por sua morte. Estava começando sua vida, iria se formar, e eu tirei isso dele por mero capricho. Josh estaria determinado a me matar, e só pararia quando conseguisse, ou quando eu o fizesse perceber que eu não quis que ele morresse.
__Nenhuma das duas formas era exatamente fácil ou mesmo aceitável.
__A luz da manhã já começa a entrar pela porta de vidro da saca quando paramos de conversar. Naquelas poucas horas, Blake me pareceu um homem gentil, atencioso e com um triste passado. Nada do imbecil arrogante que eu conhecia até horas antes.
__- Está amanhecendo. – Eu olhava pela porta.
__Blake buscou o relógio de pulso que estava a seu lado no chão.
__- São 6 horas. Quer que eu te leve pra casa agora? – Ele falava baixo, e eu não sabia dizer se ele estava cansado, ou se sentia algum tipo de tristeza.
__- Quero sim. – Eu já ia me levantando, vendo ele fazer o mesmo.
__- Não que seja da minha conta, mas não acharão estranho você chegar da casa da sua melhor amiga as 6:30 da manhã? – Blake tinha razão, e eu sabia. Quando passo a noite na casa da Jude, costumo voltar apenas após o almoço do dia seguinte. Não sei que tipo de expressão eu fiz, mas Blake entendeu. – Vamos tomar café. Comer alguma coisa. Depois resolvemos.
__Blake já estava andando pela sala enquanto falava. Eu não havia reparado antes, mas se eu tivesse virado à esquerda quando desci, teria dado com a porta da cozinha. Me senti meio idiota por não notar aquela porta ali.
__A cozinha era toda em branco e prata. Armários brancos bem limpos. Geladeira, fogão e outros aparelhos em prata brilhante. Bem no centro da cozinha um balcão de mármore que provavelmente servia como mesa caso não houvesse pessoas o suficiente para ocupar a grande mesa de vidro na sala ao lado. Quatro bancos de pernas altas circundavam o balcão. Sentei-me em um deles, e fiquei observando a cozinha que era maior que a sala da minha casa.
__- Fique sentada um minuto. Já volto. – Blake saiu da cozinha e sumiu escada a cima. Menos de 10 minutos depois estava voltando, a camisa social ainda estava aberta e ele se ocupava em dobrar as mangas compridas até o cotovelo, enquanto o mais novo modelo de celular estava presso entre sua orelha e o ombro. - ...Só queria deixar avisado. Não será muita coisa, mas vou me atrasar alguns minutos. Tenho uma coisa pra resolver. Certo. Nos vemos daqui a pouco. – Desligou.
__- Vai sair pra algum lugar? - Perguntei.
__Blake havia começado a fechar os botões da camisa, mas parou quando eu perguntei, como se minhas palavras fossem algo inacreditável.
__- Trabalhar. – A expressão que sugeria que era uma resposta óbvia.
__- Você trabalha? – Eu estava sinceramente chocada.
__Blake riu, me dando as costas e abrindo a geladeira.
__- Eu trabalho desde os 17 anos. É algo tão chocante assim? – Várias coisas começavam a ocupar o balcão no centro da cozinha.
__- Não. Eu só achei que...
__- ...Que eu era um filhinho de papai que gasta o que quiser no cartão dos pais. – Ele foi direto.
__Fiquei vermelha e abaixei o rosto.
__- Você é tão previsível. – Blake remexia os armários e gaveta, pegando diversos utensílios culinários, e abrindo potes e embalagens.
__- Você cozinha? – Eu olhava curiosa.
__Blake largou as coisas no balcão, apoiando as mãos nele e se inclinando em minha direção, sério.
__- Sim, Allyson. Eu cozinho. Eu trabalho. Eu moro sozinho. Eu tenho meu próprio carro. E só pra completar seu arquivo, também sou músico. Agora, se não tem mais perguntas, vou fazer algo pra comer.
__Voltou a mexer as coisas em silêncio. Eu estava um pouco assustada com a reação dele, mas nada grave. Eu queria fazer mais perguntas. Blake era um grande mistério, e desvendá-lo estava sendo divertido. Decidi me arriscar.
__- No que você trabalhar? – Falei quase em um sussurro, esperando que ele me ignorasse ou gritasse comigo.
__- Supervisor do Banco Central. – O tom de voz era normal, calmo, algo espantoso.
__- Nossa. Mas você é tão novo. – Ele me olhou por cima do ombro com um olhar sério. Abaixei o rosto. – Desculpe.
__Os minutos seguintes só foram preenchidos com os sons da comida sendo feita. Blake lhe dava muito bem com facas, cortando fatias de bacon com eximia precisão. Eu assisti toda a preparação e logo ele colocou um prato a minha frente. Segundos depois estava colocando bacon, ovos fritos e uma omelete em meu prato. Fez o mesmo no prato mais perto dele, e tirou uma caixa de suco da geladeira.
__Comemos em silencio. Blake só olhava para a comida no prato, mas eu percebia que sua mente viajava por outros lugares. Depois de comermos eu fiquei na sala assistindo a uma grande tela de tv que magicamente aparecia no lugar de um quadro na parede. Blake estava no andar de cima, acabando de se arrumar.
__- Podemos ir? – Descia a escada, ainda ajeitando o cabelo com gel.
__Virei e me deparei com um Blake de roupa social completa, os cabelos arrumados no estilo bagunçado, por assim dizer, e exalando um perfume inebriante. Perdi a voz.
__- Allyson?
__- Hã? – Fui trazida de volta. – Sua gravata está torta. – Eu queria chegar mais perto. Estiquei as mãos e ajeitei a gravata.
__- Obrigado. Vamos.
__Blake colou diversas coisas nos bolsos. Carteira, chaves do apartamento, chaves do carro, celular, moedas...Abriu a porta e me deu passagem. Eu estava com a bolsa no ombro e os livros na mão. Passava das 7:30 da manhã de um dia de sol. Parei no corredor para tirar os cabelos que um vento cismava em jogar nos meus olhos. Virei e parei estática, olhando o vidro quebrado da madrugada passada.
__Eu não conseguia me mexer. Eu tremia. Teríamos que andar até quase os cacos de vidro para usar o elevador. Me assustei por um segundo, sentimento que foi substituído por surpresa quando me dei conta que Blake havia segurado minha mão com força.
__- Tudo bem. – Ele disse, sem me olhar.
__Me agarrei à mão dele e assim chegamos ao elevador. Eu não tirava os olhos da parede de vidro quebrado. Fui empurrada para dentro do elevador com estranha gentileza e as portas se fecharam, e Blake soltou minha mão, recostando em uma das paredes.
__- Eu pensava nisso ontem. Que andar estamos? – Via Blake apertar o botão do subsolo.
__- Vigésimo oitavo. – Direto. Típico.
__Um arrepio subiu pela minha espinha ao me dar conta que poucas horas antes eu estava pendurada a 28 andares do nível da rua. Chegamos ao subsolo sem parar em nenhum outro andar, e Blake andou rápido até um elegante modelo esporte preto que parecia saído de um comercial de carros importados. Ou do filme do batman.
__Preferi evitar comentários, e ocupei o assento do carona em silêncio. No caminho só conversamos o necessário para que eu explicasse como chegar até a minha casa. Quando senti frio, pedi que ele subisse os vidros das janelas, mas a resposta foi uma jaqueta preta jogada no meu colo.
__- Se tem frio, vista. – Sem tirar os olhos da rua.
__Vesti a jaqueta que era bem maior que eu e me encolhi no confortável banco do carro. Chegamos em casa, passava 5 minutos das 8 da manhã.
__- É aqui. Obrigada pela carona. E por ontem. E por tudo.
__- Já disse que não ficaremos amiguinhos por causa disso. – Ele nem virou o rosto na minha direção.
__- ... – Abri a porta e ia saindo, novamente irritada. Mas uma mão no meu pulso me segurou no carro.
__- Não fiz nada que eu não quisesse fazer. – Olhos frios, rosto sério, palavras sinceras. Sorri e saí do carro. Fechando a porta atrás de mim.
__- Ah. – Parei. – Sua jaqueta. – Começava a tirar.
__- Não. Fique com ela. Me devolva depois. – Já ligava o carro novamente. Apenas concordei com um movimento de cabeça. O carro andou alguns centímetros e parou novamente. – Allyson.
__Olhei para ele, esperando que dissesse alguma coisa. Ele apenas me encarou por alguns minutos. Olhou novamente para frente, colocou um par de óculos escuros e disse duas palavras antes de acelerar o carro e sumir na esquina:
__- Se cuide.
__O resto do dia se passou no mais completo tédio. Fiquei o tempo todo no quarto, tentando estudar, mas não tirava Blake da cabeça. Quando dei por mim, já havia escrito o nome dele em quase toda a folha do meu caderno. Olhava para o relógio a cada 10 minutos, esperando que já tivessem se passado muitos minutos mais, para poder ir à universidade.
__Me arrumei da melhor forma possível, e corri para o carro quando Jude parou em frente a minha casa. Não lhe contei sobre a noite passada, mas ela me achou “diferente”. A jaqueta de Blake estava dobrada e guardada na minha bolsa, pronta para ser usada como desculpa para falar com ele. Mas Blake não apareceu na entrada. Talvez fosse chegar atrasado. Mas ele também não apareceu no intervalo. Ele não foi à aula naquela noite.
__Eu queria vê-lo, e pela primeira vez, bolei um plano maluco que talvez desse certo. Agora sabia onde Blake morava, e sabia como ir até lá de ônibus. Liguei para casa e avisei que ficaria na casa de Jude novamente. Para Jude disse que dormiria na casa de uma tia, por isso pedi que não me ligasse se não fosse no celular, e assim que a aula acabou, eu peguei o ônibus para o prédio de Blake.
__Foi fácil achar o prédio, e uma grande turma estava entrando, ao que imaginei para alguma festa no salão do prédio, ou coisa parecida. Me aproveitei da quantidade de pessoas para não ter de me identificar na portaria. Queria fazer uma surpresa. Entrei no elevador sozinha e apertei o botão que mostrava o número vinte e oito. Ao sair do elevador olhei para a esquerda. Os cacos de vidro haviam sido varridos, e um plástico preto cobria todo o buraco da parede, impedindo o vento. Já eram onze horas da noite, e o vento fazia um baque forte no plástico. Segui o corredor até a porta do apartamento e apertei a companhia.
__Se passou 2 minutos, mas para mim pareceu bem mais, e ninguém atendeu. Toquei novamente. Dessa vez ouvi o som da chave virando na fechadura e a porta se abriu.
__- Surpresa! – Falei animada.
__- Uau! Realmente é! – Uma mulher estava parada à porta, me olhando assustada. Meu sorriso morreu no mesmo instante em que reparei que a estranha vestia uma camisa social masculina, a mesma que Blake estava de manhã, e mais nada. – E então? – Ela disse.
__- Desculpe. O que? – Eu não queria acreditar no óbvio.
__- Acho que você não é da pizzaria, certo? – Ela me disse. Eu analisava seus longos cabelos castanhos avermelhados, e seus olhos cor de mel. Demorei um certo tempo para voltar a falar.
__- Ahn. Não. Eu vim visitar alguém, mas devo ter decido no andar errado.
__- Ah, entendo. Sem problemas, fofa. – A mulher ia se afastar para fechar a porta, e eu ia me virar para ir embora, certa de ter descido no andar errado, quando passos vieram pela escada e a voz grossa veio clara.
__- Allyson? – Blake estava inteiramente molhado, com uma toalha enrolada em torno da cintura. Sua expressão misturava choque com dúvida. – O que está fazendo aqui?
__- Eu só...Ahn... – As palavras não se juntavam em uma frase coerente. – Eu vim...devolver... – Abri a bolsa e puxei a jaqueta preta, esticando para ele.
__- Então você veio ao apê certo. Que legal. – Divia animada a mulher semi-nua.
__Blake não parecia confortável com a situação. Havia esticado a mão para a jaqueta, mas não a tirara da minha mão. Estávamos ambos com os braços esticados, segurando a jaqueta, em uma cena digna de um cabo de guerra. Blake abaixou a voz e olhou para a mulher animadinha.
__- Courtney, por que não vai tomar um banho?
__- Eu vou mesmo. Estava esperando você desocupar o banheiro. – Ela girou nos calcanhares e começou a saltitar escada a cima. Sim, ela saltitava.
__- Tchau moça! – Ela gritou lá de cima. Não respondi.
__- Sua namorada? – Perguntei.
__- Não. É uma garota da minha sala. – Blake encostou à porta, jogando a jaqueta para dentro.
__- Ah. Eu não queria atrapalhar o “dever de casa”. Só vim entregar sua jaqueta. Vou embora. – Dei as costas, seguindo pelo corredor.
__- Allyson, espera. – Ele veio atrás, me segurando pelo braço.
__- Me solta. Olha, a boba fui eu. Me iludi com coisas que não existem. – Puxei o braço e me afastei alguns passos dele. – Sabe, eu tinha mudado meu conceito sobre você. Mas parece que a definição de arrogante e imbecil ainda é perfeita! – Saí andando.
__- Você não entende nada sobre nada. Ouve algumas coisas sobre mim, e acha que me conhece. Mas no fundo não passa de uma criança com pirraça. – Ele revidava.
__Voltei o pedaço de corredor que nos separava e sem parar, sem avisar, sem hesitar, estampei a palma da minha mão no rosto dele.
__- Imbecil! – Falei.
__Blake estava furioso, eu podia ver isso em seu olhar que me fuzilava. Eu estava com um pouco de medo mas me mantive firme ali. Quando me virei para ir embora de vez, Blake me segurou pelo pulso me fazendo girar. Bati as costas na parede e logo ele estava à minha frente, me impedindo de sair. Sua mão direita ainda segurava meu pulso com força, enquanto sua mão esquerda segurava meu rosto. Tudo isso levou menos de cinco segundos e foi concluído quando os lábios dele forçaram os meus até permitir que sua língua estivesse em minha boca. Um minuto depois ele afastou o rosto, mas ainda me segurava no lugar.
__- Cale essa maldita boca! – Ele sussurrou.
__Eu estava em choque.
__Josh me culpava por sua morte. Estava começando sua vida, iria se formar, e eu tirei isso dele por mero capricho. Josh estaria determinado a me matar, e só pararia quando conseguisse, ou quando eu o fizesse perceber que eu não quis que ele morresse.
__Nenhuma das duas formas era exatamente fácil ou mesmo aceitável.
__A luz da manhã já começa a entrar pela porta de vidro da saca quando paramos de conversar. Naquelas poucas horas, Blake me pareceu um homem gentil, atencioso e com um triste passado. Nada do imbecil arrogante que eu conhecia até horas antes.
__- Está amanhecendo. – Eu olhava pela porta.
__Blake buscou o relógio de pulso que estava a seu lado no chão.
__- São 6 horas. Quer que eu te leve pra casa agora? – Ele falava baixo, e eu não sabia dizer se ele estava cansado, ou se sentia algum tipo de tristeza.
__- Quero sim. – Eu já ia me levantando, vendo ele fazer o mesmo.
__- Não que seja da minha conta, mas não acharão estranho você chegar da casa da sua melhor amiga as 6:30 da manhã? – Blake tinha razão, e eu sabia. Quando passo a noite na casa da Jude, costumo voltar apenas após o almoço do dia seguinte. Não sei que tipo de expressão eu fiz, mas Blake entendeu. – Vamos tomar café. Comer alguma coisa. Depois resolvemos.
__Blake já estava andando pela sala enquanto falava. Eu não havia reparado antes, mas se eu tivesse virado à esquerda quando desci, teria dado com a porta da cozinha. Me senti meio idiota por não notar aquela porta ali.
__A cozinha era toda em branco e prata. Armários brancos bem limpos. Geladeira, fogão e outros aparelhos em prata brilhante. Bem no centro da cozinha um balcão de mármore que provavelmente servia como mesa caso não houvesse pessoas o suficiente para ocupar a grande mesa de vidro na sala ao lado. Quatro bancos de pernas altas circundavam o balcão. Sentei-me em um deles, e fiquei observando a cozinha que era maior que a sala da minha casa.
__- Fique sentada um minuto. Já volto. – Blake saiu da cozinha e sumiu escada a cima. Menos de 10 minutos depois estava voltando, a camisa social ainda estava aberta e ele se ocupava em dobrar as mangas compridas até o cotovelo, enquanto o mais novo modelo de celular estava presso entre sua orelha e o ombro. - ...Só queria deixar avisado. Não será muita coisa, mas vou me atrasar alguns minutos. Tenho uma coisa pra resolver. Certo. Nos vemos daqui a pouco. – Desligou.
__- Vai sair pra algum lugar? - Perguntei.
__Blake havia começado a fechar os botões da camisa, mas parou quando eu perguntei, como se minhas palavras fossem algo inacreditável.
__- Trabalhar. – A expressão que sugeria que era uma resposta óbvia.
__- Você trabalha? – Eu estava sinceramente chocada.
__Blake riu, me dando as costas e abrindo a geladeira.
__- Eu trabalho desde os 17 anos. É algo tão chocante assim? – Várias coisas começavam a ocupar o balcão no centro da cozinha.
__- Não. Eu só achei que...
__- ...Que eu era um filhinho de papai que gasta o que quiser no cartão dos pais. – Ele foi direto.
__Fiquei vermelha e abaixei o rosto.
__- Você é tão previsível. – Blake remexia os armários e gaveta, pegando diversos utensílios culinários, e abrindo potes e embalagens.
__- Você cozinha? – Eu olhava curiosa.
__Blake largou as coisas no balcão, apoiando as mãos nele e se inclinando em minha direção, sério.
__- Sim, Allyson. Eu cozinho. Eu trabalho. Eu moro sozinho. Eu tenho meu próprio carro. E só pra completar seu arquivo, também sou músico. Agora, se não tem mais perguntas, vou fazer algo pra comer.
__Voltou a mexer as coisas em silêncio. Eu estava um pouco assustada com a reação dele, mas nada grave. Eu queria fazer mais perguntas. Blake era um grande mistério, e desvendá-lo estava sendo divertido. Decidi me arriscar.
__- No que você trabalhar? – Falei quase em um sussurro, esperando que ele me ignorasse ou gritasse comigo.
__- Supervisor do Banco Central. – O tom de voz era normal, calmo, algo espantoso.
__- Nossa. Mas você é tão novo. – Ele me olhou por cima do ombro com um olhar sério. Abaixei o rosto. – Desculpe.
__Os minutos seguintes só foram preenchidos com os sons da comida sendo feita. Blake lhe dava muito bem com facas, cortando fatias de bacon com eximia precisão. Eu assisti toda a preparação e logo ele colocou um prato a minha frente. Segundos depois estava colocando bacon, ovos fritos e uma omelete em meu prato. Fez o mesmo no prato mais perto dele, e tirou uma caixa de suco da geladeira.
__Comemos em silencio. Blake só olhava para a comida no prato, mas eu percebia que sua mente viajava por outros lugares. Depois de comermos eu fiquei na sala assistindo a uma grande tela de tv que magicamente aparecia no lugar de um quadro na parede. Blake estava no andar de cima, acabando de se arrumar.
__- Podemos ir? – Descia a escada, ainda ajeitando o cabelo com gel.
__Virei e me deparei com um Blake de roupa social completa, os cabelos arrumados no estilo bagunçado, por assim dizer, e exalando um perfume inebriante. Perdi a voz.
__- Allyson?
__- Hã? – Fui trazida de volta. – Sua gravata está torta. – Eu queria chegar mais perto. Estiquei as mãos e ajeitei a gravata.
__- Obrigado. Vamos.
__Blake colou diversas coisas nos bolsos. Carteira, chaves do apartamento, chaves do carro, celular, moedas...Abriu a porta e me deu passagem. Eu estava com a bolsa no ombro e os livros na mão. Passava das 7:30 da manhã de um dia de sol. Parei no corredor para tirar os cabelos que um vento cismava em jogar nos meus olhos. Virei e parei estática, olhando o vidro quebrado da madrugada passada.
__Eu não conseguia me mexer. Eu tremia. Teríamos que andar até quase os cacos de vidro para usar o elevador. Me assustei por um segundo, sentimento que foi substituído por surpresa quando me dei conta que Blake havia segurado minha mão com força.
__- Tudo bem. – Ele disse, sem me olhar.
__Me agarrei à mão dele e assim chegamos ao elevador. Eu não tirava os olhos da parede de vidro quebrado. Fui empurrada para dentro do elevador com estranha gentileza e as portas se fecharam, e Blake soltou minha mão, recostando em uma das paredes.
__- Eu pensava nisso ontem. Que andar estamos? – Via Blake apertar o botão do subsolo.
__- Vigésimo oitavo. – Direto. Típico.
__Um arrepio subiu pela minha espinha ao me dar conta que poucas horas antes eu estava pendurada a 28 andares do nível da rua. Chegamos ao subsolo sem parar em nenhum outro andar, e Blake andou rápido até um elegante modelo esporte preto que parecia saído de um comercial de carros importados. Ou do filme do batman.
__Preferi evitar comentários, e ocupei o assento do carona em silêncio. No caminho só conversamos o necessário para que eu explicasse como chegar até a minha casa. Quando senti frio, pedi que ele subisse os vidros das janelas, mas a resposta foi uma jaqueta preta jogada no meu colo.
__- Se tem frio, vista. – Sem tirar os olhos da rua.
__Vesti a jaqueta que era bem maior que eu e me encolhi no confortável banco do carro. Chegamos em casa, passava 5 minutos das 8 da manhã.
__- É aqui. Obrigada pela carona. E por ontem. E por tudo.
__- Já disse que não ficaremos amiguinhos por causa disso. – Ele nem virou o rosto na minha direção.
__- ... – Abri a porta e ia saindo, novamente irritada. Mas uma mão no meu pulso me segurou no carro.
__- Não fiz nada que eu não quisesse fazer. – Olhos frios, rosto sério, palavras sinceras. Sorri e saí do carro. Fechando a porta atrás de mim.
__- Ah. – Parei. – Sua jaqueta. – Começava a tirar.
__- Não. Fique com ela. Me devolva depois. – Já ligava o carro novamente. Apenas concordei com um movimento de cabeça. O carro andou alguns centímetros e parou novamente. – Allyson.
__Olhei para ele, esperando que dissesse alguma coisa. Ele apenas me encarou por alguns minutos. Olhou novamente para frente, colocou um par de óculos escuros e disse duas palavras antes de acelerar o carro e sumir na esquina:
__- Se cuide.
__O resto do dia se passou no mais completo tédio. Fiquei o tempo todo no quarto, tentando estudar, mas não tirava Blake da cabeça. Quando dei por mim, já havia escrito o nome dele em quase toda a folha do meu caderno. Olhava para o relógio a cada 10 minutos, esperando que já tivessem se passado muitos minutos mais, para poder ir à universidade.
__Me arrumei da melhor forma possível, e corri para o carro quando Jude parou em frente a minha casa. Não lhe contei sobre a noite passada, mas ela me achou “diferente”. A jaqueta de Blake estava dobrada e guardada na minha bolsa, pronta para ser usada como desculpa para falar com ele. Mas Blake não apareceu na entrada. Talvez fosse chegar atrasado. Mas ele também não apareceu no intervalo. Ele não foi à aula naquela noite.
__Eu queria vê-lo, e pela primeira vez, bolei um plano maluco que talvez desse certo. Agora sabia onde Blake morava, e sabia como ir até lá de ônibus. Liguei para casa e avisei que ficaria na casa de Jude novamente. Para Jude disse que dormiria na casa de uma tia, por isso pedi que não me ligasse se não fosse no celular, e assim que a aula acabou, eu peguei o ônibus para o prédio de Blake.
__Foi fácil achar o prédio, e uma grande turma estava entrando, ao que imaginei para alguma festa no salão do prédio, ou coisa parecida. Me aproveitei da quantidade de pessoas para não ter de me identificar na portaria. Queria fazer uma surpresa. Entrei no elevador sozinha e apertei o botão que mostrava o número vinte e oito. Ao sair do elevador olhei para a esquerda. Os cacos de vidro haviam sido varridos, e um plástico preto cobria todo o buraco da parede, impedindo o vento. Já eram onze horas da noite, e o vento fazia um baque forte no plástico. Segui o corredor até a porta do apartamento e apertei a companhia.
__Se passou 2 minutos, mas para mim pareceu bem mais, e ninguém atendeu. Toquei novamente. Dessa vez ouvi o som da chave virando na fechadura e a porta se abriu.
__- Surpresa! – Falei animada.
__- Uau! Realmente é! – Uma mulher estava parada à porta, me olhando assustada. Meu sorriso morreu no mesmo instante em que reparei que a estranha vestia uma camisa social masculina, a mesma que Blake estava de manhã, e mais nada. – E então? – Ela disse.
__- Desculpe. O que? – Eu não queria acreditar no óbvio.
__- Acho que você não é da pizzaria, certo? – Ela me disse. Eu analisava seus longos cabelos castanhos avermelhados, e seus olhos cor de mel. Demorei um certo tempo para voltar a falar.
__- Ahn. Não. Eu vim visitar alguém, mas devo ter decido no andar errado.
__- Ah, entendo. Sem problemas, fofa. – A mulher ia se afastar para fechar a porta, e eu ia me virar para ir embora, certa de ter descido no andar errado, quando passos vieram pela escada e a voz grossa veio clara.
__- Allyson? – Blake estava inteiramente molhado, com uma toalha enrolada em torno da cintura. Sua expressão misturava choque com dúvida. – O que está fazendo aqui?
__- Eu só...Ahn... – As palavras não se juntavam em uma frase coerente. – Eu vim...devolver... – Abri a bolsa e puxei a jaqueta preta, esticando para ele.
__- Então você veio ao apê certo. Que legal. – Divia animada a mulher semi-nua.
__Blake não parecia confortável com a situação. Havia esticado a mão para a jaqueta, mas não a tirara da minha mão. Estávamos ambos com os braços esticados, segurando a jaqueta, em uma cena digna de um cabo de guerra. Blake abaixou a voz e olhou para a mulher animadinha.
__- Courtney, por que não vai tomar um banho?
__- Eu vou mesmo. Estava esperando você desocupar o banheiro. – Ela girou nos calcanhares e começou a saltitar escada a cima. Sim, ela saltitava.
__- Tchau moça! – Ela gritou lá de cima. Não respondi.
__- Sua namorada? – Perguntei.
__- Não. É uma garota da minha sala. – Blake encostou à porta, jogando a jaqueta para dentro.
__- Ah. Eu não queria atrapalhar o “dever de casa”. Só vim entregar sua jaqueta. Vou embora. – Dei as costas, seguindo pelo corredor.
__- Allyson, espera. – Ele veio atrás, me segurando pelo braço.
__- Me solta. Olha, a boba fui eu. Me iludi com coisas que não existem. – Puxei o braço e me afastei alguns passos dele. – Sabe, eu tinha mudado meu conceito sobre você. Mas parece que a definição de arrogante e imbecil ainda é perfeita! – Saí andando.
__- Você não entende nada sobre nada. Ouve algumas coisas sobre mim, e acha que me conhece. Mas no fundo não passa de uma criança com pirraça. – Ele revidava.
__Voltei o pedaço de corredor que nos separava e sem parar, sem avisar, sem hesitar, estampei a palma da minha mão no rosto dele.
__- Imbecil! – Falei.
__Blake estava furioso, eu podia ver isso em seu olhar que me fuzilava. Eu estava com um pouco de medo mas me mantive firme ali. Quando me virei para ir embora de vez, Blake me segurou pelo pulso me fazendo girar. Bati as costas na parede e logo ele estava à minha frente, me impedindo de sair. Sua mão direita ainda segurava meu pulso com força, enquanto sua mão esquerda segurava meu rosto. Tudo isso levou menos de cinco segundos e foi concluído quando os lábios dele forçaram os meus até permitir que sua língua estivesse em minha boca. Um minuto depois ele afastou o rosto, mas ainda me segurava no lugar.
__- Cale essa maldita boca! – Ele sussurrou.
__Eu estava em choque.
m
m
Continua...
m




