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25 de abr. de 2010

05 - Relação


__As poucas horas que restavam daquela noite foram passadas em um estranho clima de lembranças tristes, medo e compreensão. Blake se sentou no chão, olhando o fogo da lareira, e eu me sentei ao seu lado. Falei sobre meu irmão, como éramos juntos, e sobre sua morte. Blake me falou sobre os motivos de eu ver Josh por aí, e dele querer me matar.
__Josh me culpava por sua morte. Estava começando sua vida, iria se formar, e eu tirei isso dele por mero capricho. Josh estaria determinado a me matar, e só pararia quando conseguisse, ou quando eu o fizesse perceber que eu não quis que ele morresse.
__Nenhuma das duas formas era exatamente fácil ou mesmo aceitável.
__A luz da manhã já começa a entrar pela porta de vidro da saca quando paramos de conversar. Naquelas poucas horas, Blake me pareceu um homem gentil, atencioso e com um triste passado. Nada do imbecil arrogante que eu conhecia até horas antes.
__- Está amanhecendo. – Eu olhava pela porta.
__Blake buscou o relógio de pulso que estava a seu lado no chão.
__- São 6 horas. Quer que eu te leve pra casa agora? – Ele falava baixo, e eu não sabia dizer se ele estava cansado, ou se sentia algum tipo de tristeza.
__- Quero sim. – Eu já ia me levantando, vendo ele fazer o mesmo.
__- Não que seja da minha conta, mas não acharão estranho você chegar da casa da sua melhor amiga as 6:30 da manhã? – Blake tinha razão, e eu sabia. Quando passo a noite na casa da Jude, costumo voltar apenas após o almoço do dia seguinte. Não sei que tipo de expressão eu fiz, mas Blake entendeu. – Vamos tomar café. Comer alguma coisa. Depois resolvemos.
__Blake já estava andando pela sala enquanto falava. Eu não havia reparado antes, mas se eu tivesse virado à esquerda quando desci, teria dado com a porta da cozinha. Me senti meio idiota por não notar aquela porta ali.
__A cozinha era toda em branco e prata. Armários brancos bem limpos. Geladeira, fogão e outros aparelhos em prata brilhante. Bem no centro da cozinha um balcão de mármore que provavelmente servia como mesa caso não houvesse pessoas o suficiente para ocupar a grande mesa de vidro na sala ao lado. Quatro bancos de pernas altas circundavam o balcão. Sentei-me em um deles, e fiquei observando a cozinha que era maior que a sala da minha casa.
__- Fique sentada um minuto. Já volto. – Blake saiu da cozinha e sumiu escada a cima. Menos de 10 minutos depois estava voltando, a camisa social ainda estava aberta e ele se ocupava em dobrar as mangas compridas até o cotovelo, enquanto o mais novo modelo de celular estava presso entre sua orelha e o ombro. - ...Só queria deixar avisado. Não será muita coisa, mas vou me atrasar alguns minutos. Tenho uma coisa pra resolver. Certo. Nos vemos daqui a pouco. – Desligou.
__- Vai sair pra algum lugar? - Perguntei.
__Blake havia começado a fechar os botões da camisa, mas parou quando eu perguntei, como se minhas palavras fossem algo inacreditável.
__- Trabalhar. – A expressão que sugeria que era uma resposta óbvia.
__- Você trabalha? – Eu estava sinceramente chocada.
__Blake riu, me dando as costas e abrindo a geladeira.
__- Eu trabalho desde os 17 anos. É algo tão chocante assim? – Várias coisas começavam a ocupar o balcão no centro da cozinha.
__- Não. Eu só achei que...
__- ...Que eu era um filhinho de papai que gasta o que quiser no cartão dos pais. – Ele foi direto.
__Fiquei vermelha e abaixei o rosto.
__- Você é tão previsível. – Blake remexia os armários e gaveta, pegando diversos utensílios culinários, e abrindo potes e embalagens.
__- Você cozinha? – Eu olhava curiosa.
__Blake largou as coisas no balcão, apoiando as mãos nele e se inclinando em minha direção, sério.
__- Sim, Allyson. Eu cozinho. Eu trabalho. Eu moro sozinho. Eu tenho meu próprio carro. E só pra completar seu arquivo, também sou músico. Agora, se não tem mais perguntas, vou fazer algo pra comer.
__Voltou a mexer as coisas em silêncio. Eu estava um pouco assustada com a reação dele, mas nada grave. Eu queria fazer mais perguntas. Blake era um grande mistério, e desvendá-lo estava sendo divertido. Decidi me arriscar.
__- No que você trabalhar? – Falei quase em um sussurro, esperando que ele me ignorasse ou gritasse comigo.
__- Supervisor do Banco Central. – O tom de voz era normal, calmo, algo espantoso.
__- Nossa. Mas você é tão novo. – Ele me olhou por cima do ombro com um olhar sério. Abaixei o rosto. – Desculpe.
__Os minutos seguintes só foram preenchidos com os sons da comida sendo feita. Blake lhe dava muito bem com facas, cortando fatias de bacon com eximia precisão. Eu assisti toda a preparação e logo ele colocou um prato a minha frente. Segundos depois estava colocando bacon, ovos fritos e uma omelete em meu prato. Fez o mesmo no prato mais perto dele, e tirou uma caixa de suco da geladeira.
__Comemos em silencio. Blake só olhava para a comida no prato, mas eu percebia que sua mente viajava por outros lugares. Depois de comermos eu fiquei na sala assistindo a uma grande tela de tv que magicamente aparecia no lugar de um quadro na parede. Blake estava no andar de cima, acabando de se arrumar.
__- Podemos ir? – Descia a escada, ainda ajeitando o cabelo com gel.
__Virei e me deparei com um Blake de roupa social completa, os cabelos arrumados no estilo bagunçado, por assim dizer, e exalando um perfume inebriante. Perdi a voz.
__- Allyson?
__- Hã? – Fui trazida de volta. – Sua gravata está torta. – Eu queria chegar mais perto. Estiquei as mãos e ajeitei a gravata.
__- Obrigado. Vamos.
__Blake colou diversas coisas nos bolsos. Carteira, chaves do apartamento, chaves do carro, celular, moedas...Abriu a porta e me deu passagem. Eu estava com a bolsa no ombro e os livros na mão. Passava das 7:30 da manhã de um dia de sol. Parei no corredor para tirar os cabelos que um vento cismava em jogar nos meus olhos. Virei e parei estática, olhando o vidro quebrado da madrugada passada.
__Eu não conseguia me mexer. Eu tremia. Teríamos que andar até quase os cacos de vidro para usar o elevador. Me assustei por um segundo, sentimento que foi substituído por surpresa quando me dei conta que Blake havia segurado minha mão com força.
__- Tudo bem. – Ele disse, sem me olhar.
__Me agarrei à mão dele e assim chegamos ao elevador. Eu não tirava os olhos da parede de vidro quebrado. Fui empurrada para dentro do elevador com estranha gentileza e as portas se fecharam, e Blake soltou minha mão, recostando em uma das paredes.
__- Eu pensava nisso ontem. Que andar estamos? – Via Blake apertar o botão do subsolo.
__- Vigésimo oitavo. – Direto. Típico.
__Um arrepio subiu pela minha espinha ao me dar conta que poucas horas antes eu estava pendurada a 28 andares do nível da rua. Chegamos ao subsolo sem parar em nenhum outro andar, e Blake andou rápido até um elegante modelo esporte preto que parecia saído de um comercial de carros importados. Ou do filme do batman.
__Preferi evitar comentários, e ocupei o assento do carona em silêncio. No caminho só conversamos o necessário para que eu explicasse como chegar até a minha casa. Quando senti frio, pedi que ele subisse os vidros das janelas, mas a resposta foi uma jaqueta preta jogada no meu colo.
__- Se tem frio, vista. – Sem tirar os olhos da rua.
__Vesti a jaqueta que era bem maior que eu e me encolhi no confortável banco do carro. Chegamos em casa, passava 5 minutos das 8 da manhã.
__- É aqui. Obrigada pela carona. E por ontem. E por tudo.
__- Já disse que não ficaremos amiguinhos por causa disso. – Ele nem virou o rosto na minha direção.
__- ... – Abri a porta e ia saindo, novamente irritada. Mas uma mão no meu pulso me segurou no carro.
__- Não fiz nada que eu não quisesse fazer. – Olhos frios, rosto sério, palavras sinceras. Sorri e saí do carro. Fechando a porta atrás de mim.
__- Ah. – Parei. – Sua jaqueta. – Começava a tirar.
__- Não. Fique com ela. Me devolva depois. – Já ligava o carro novamente. Apenas concordei com um movimento de cabeça. O carro andou alguns centímetros e parou novamente. – Allyson.
__Olhei para ele, esperando que dissesse alguma coisa. Ele apenas me encarou por alguns minutos. Olhou novamente para frente, colocou um par de óculos escuros e disse duas palavras antes de acelerar o carro e sumir na esquina:
__- Se cuide.

__O resto do dia se passou no mais completo tédio. Fiquei o tempo todo no quarto, tentando estudar, mas não tirava Blake da cabeça. Quando dei por mim, já havia escrito o nome dele em quase toda a folha do meu caderno. Olhava para o relógio a cada 10 minutos, esperando que já tivessem se passado muitos minutos mais, para poder ir à universidade.
__Me arrumei da melhor forma possível, e corri para o carro quando Jude parou em frente a minha casa. Não lhe contei sobre a noite passada, mas ela me achou “diferente”. A jaqueta de Blake estava dobrada e guardada na minha bolsa, pronta para ser usada como desculpa para falar com ele. Mas Blake não apareceu na entrada. Talvez fosse chegar atrasado. Mas ele também não apareceu no intervalo. Ele não foi à aula naquela noite.
__Eu queria vê-lo, e pela primeira vez, bolei um plano maluco que talvez desse certo. Agora sabia onde Blake morava, e sabia como ir até lá de ônibus. Liguei para casa e avisei que ficaria na casa de Jude novamente. Para Jude disse que dormiria na casa de uma tia, por isso pedi que não me ligasse se não fosse no celular, e assim que a aula acabou, eu peguei o ônibus para o prédio de Blake.
__Foi fácil achar o prédio, e uma grande turma estava entrando, ao que imaginei para alguma festa no salão do prédio, ou coisa parecida. Me aproveitei da quantidade de pessoas para não ter de me identificar na portaria. Queria fazer uma surpresa. Entrei no elevador sozinha e apertei o botão que mostrava o número vinte e oito. Ao sair do elevador olhei para a esquerda. Os cacos de vidro haviam sido varridos, e um plástico preto cobria todo o buraco da parede, impedindo o vento. Já eram onze horas da noite, e o vento fazia um baque forte no plástico. Segui o corredor até a porta do apartamento e apertei a companhia.
__Se passou 2 minutos, mas para mim pareceu bem mais, e ninguém atendeu. Toquei novamente. Dessa vez ouvi o som da chave virando na fechadura e a porta se abriu.
__- Surpresa! – Falei animada.
__- Uau! Realmente é! – Uma mulher estava parada à porta, me olhando assustada. Meu sorriso morreu no mesmo instante em que reparei que a estranha vestia uma camisa social masculina, a mesma que Blake estava de manhã, e mais nada. – E então? – Ela disse.
__- Desculpe. O que? – Eu não queria acreditar no óbvio.
__- Acho que você não é da pizzaria, certo? – Ela me disse. Eu analisava seus longos cabelos castanhos avermelhados, e seus olhos cor de mel. Demorei um certo tempo para voltar a falar.
__- Ahn. Não. Eu vim visitar alguém, mas devo ter decido no andar errado.
__- Ah, entendo. Sem problemas, fofa. – A mulher ia se afastar para fechar a porta, e eu ia me virar para ir embora, certa de ter descido no andar errado, quando passos vieram pela escada e a voz grossa veio clara.
__- Allyson? – Blake estava inteiramente molhado, com uma toalha enrolada em torno da cintura. Sua expressão misturava choque com dúvida. – O que está fazendo aqui?
__- Eu só...Ahn... – As palavras não se juntavam em uma frase coerente. – Eu vim...devolver... – Abri a bolsa e puxei a jaqueta preta, esticando para ele.
__- Então você veio ao apê certo. Que legal. – Divia animada a mulher semi-nua.
__Blake não parecia confortável com a situação. Havia esticado a mão para a jaqueta, mas não a tirara da minha mão. Estávamos ambos com os braços esticados, segurando a jaqueta, em uma cena digna de um cabo de guerra. Blake abaixou a voz e olhou para a mulher animadinha.
__- Courtney, por que não vai tomar um banho?
__- Eu vou mesmo. Estava esperando você desocupar o banheiro. – Ela girou nos calcanhares e começou a saltitar escada a cima. Sim, ela saltitava.
__- Tchau moça! – Ela gritou lá de cima. Não respondi.
__- Sua namorada? – Perguntei.
__- Não. É uma garota da minha sala. – Blake encostou à porta, jogando a jaqueta para dentro.
__- Ah. Eu não queria atrapalhar o “dever de casa”. Só vim entregar sua jaqueta. Vou embora. – Dei as costas, seguindo pelo corredor.
__- Allyson, espera. – Ele veio atrás, me segurando pelo braço.
__- Me solta. Olha, a boba fui eu. Me iludi com coisas que não existem. – Puxei o braço e me afastei alguns passos dele. – Sabe, eu tinha mudado meu conceito sobre você. Mas parece que a definição de arrogante e imbecil ainda é perfeita! – Saí andando.
__- Você não entende nada sobre nada. Ouve algumas coisas sobre mim, e acha que me conhece. Mas no fundo não passa de uma criança com pirraça. – Ele revidava.
__Voltei o pedaço de corredor que nos separava e sem parar, sem avisar, sem hesitar, estampei a palma da minha mão no rosto dele.
__- Imbecil! – Falei.
__Blake estava furioso, eu podia ver isso em seu olhar que me fuzilava. Eu estava com um pouco de medo mas me mantive firme ali. Quando me virei para ir embora de vez, Blake me segurou pelo pulso me fazendo girar. Bati as costas na parede e logo ele estava à minha frente, me impedindo de sair. Sua mão direita ainda segurava meu pulso com força, enquanto sua mão esquerda segurava meu rosto. Tudo isso levou menos de cinco segundos e foi concluído quando os lábios dele forçaram os meus até permitir que sua língua estivesse em minha boca. Um minuto depois ele afastou o rosto, mas ainda me segurava no lugar.
__- Cale essa maldita boca! – Ele sussurrou.
__Eu estava em choque.
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Continua...
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15 de abr. de 2010

04 - Medo!


__Eu estava no mínimo chocada com as últimas palavras dele. Não fazia qualquer sentido, mas parte de mim dizia que não era impossível. Não podemos dizer “ele não é disso”, nem de pessoas que conhecemos, o que dirá de pessoas que não conhecemos.
__Blake estava em pé perto da lareira, com os braços cruzados, olhando para mim com uma expressão vazia, sem qualquer tipo de sentimento. Eu sentia medo, apenas isso. Nada mais, nada menos. O puro e simples medo. Eu não sabia o que ele poderia fazer comigo, não sabia o que faria. Mas minha mente gritava para que eu saísse dali. Dei um passo para trás, com relutância, depois outro, e mais um. Sempre com os olhos fixos em um Blake imóvel que a qualquer instante poderia correr até mim. Olhei rapidamente para minha bolsa, e estendendo a mão eu a peguei, continuando com os passos lentos para trás. A porta de madeira se chocou com minhas gostas e eu suspirei com o susto. Minha mão esquerda estava atrás de meu próprio corpo, tateando a madeira escura em busca da maçaneta. Encontrei, fechei os dedos nela e abaixei o metal.
__O corredor do prédio estava iluminado, o que me tranqüilizou um pouco, mas o silencio incomodava. Era como estar inteiramente sozinha com um homem que, de uma forma ou de outra, acabara de declarar que matou alguém. Andei metade do corredor e parei diante das portas de um elevador. Logo apertei o botão e fiquei mudando o olhar, hora para o painel luminoso que indicava que o elevador estava subindo, hora para a porta do apartamento que eu deixara aberta. Por um momento percebi que não fazia idéia de que andar estávamos. Olhei novamente para o apartamento e Blake estava em pé, recostado no batendo da porta, me olhando de longe. Foi nesse momento que eu percebi, que embora o corredor fosse consideravelmente longo, não havia nenhuma outra porta nele. O medo voltou a me dominar. O corredor terminava em uma grande parede de vidro, proporcionando uma bela vista da Nova York noturna.
__- Você não deveria ir embora sozinha tão tarde. – A voz dele me assustou.
__- Tudo bem. Sei me cuidar. – Eu disse, com a voz trêmula.
__- Espere amanhecer pelo menos, e eu mesmo te levo. – Ainda parado ao longe. Era como se ele não quisesse se aproximar de mim, embora fosse eu que tivesse motivos para querer isso.
__- Não. – A minha voz saiu mais aguda do que eu queria.
__- Esqueceu os livros. – Ele olhou para dentro do apartamento por um instante.
__- Ah. É. Seria legal se você pudesse me levar eles essa noite, na universidade. – A lentidão do elevador me incomodava. Quão alto podíamos estar?
__- Como qui... – Ele parou de falar. Seus olhos agora estavam mais abertos, quase como uma expressão de surpresa, embora todos os outros pontos do seu rosto estivessem imóveis.
__O mais estranho é que ele não parecia estar olhando para mim. Parece olhar além de mim, para o painel de vidro do fim do corredor. Ele desencostou na porta e deu dois passos na minha direção, sem mudar a posição do olhar.
__- Allyson, volte. Agora. – Ele andava devagar. Sua voz agora era tensa, pesada.
__Eu, por instinto, fui andando para trás. Cada passo dele para frente, era um meu para trás.
__- Não se mexa! – Quase um grito. Não me importei, continuei indo. – Allyson!
__Blake esticou a mão para o vento em um pedido mudo de “venha até aqui”. Quase ao mesmo tempo o painel de vidro estourou com um baque estridente e uma chuva de pequenos fragmentos de vidro voou na minha direção. O vidro fora quebrado pelo lado de fora, e eu devo agradecer a fantástica mistura que chamam de “vidro temperado”, que impediu grandes cacos de vidro, e me lançou apenas fragmentos minúsculos que não causaram muito estrago. Com o susto eu me encolhi, e ao voltar a olhar para frente, tudo parecia em câmera lenta. Blake agora corria na minha direção, mas eu já estava indo para trás. Eu fui puxada para a beirada e sentia o corpo inclinar para trás.
__Assim que passei a borda, minhas mãos vagaram pelo nada, procurando algo em que segurar. Não gritei. Logo abaixo do local do painel de vidro havia uma borda em pedra que circundava todo o prédio. Talvez um elemento de decoração da fachada do prédio. Não importava, segurei na borda e fiquei pendurada. Quando uma rajada forte de vento chegou até mim, olhei para baixo e me encontrei há, com certeza, mais de 22 andares a cima da portaria do prédio. Gritei.
__- Me dá a mão!
__Olhei para cima e vi Blake debruçado pelo buraco, estendendo uma das mãos para baixo. A outra segurava na borda da vidraça quebrada e eu podia ver o sangue escorrer pelos restos do vidro. Algumas pontas mortais ainda estavam presas ao piso, e se Blake se inclinasse um pouco mais, seria perfurado.
__- Feche os olhos e abaixe a cabeça.
__Fiz o que ele mandou, e apenas ouvi o som do vidro sendo quebrado, e sentindo minúsculos pedacinhos batendo em minha cabeça. Quando voltei a olhar, ele havia tirado os pedaços do piso para pode debruçar por completo. Agora ele estava deitado no chão no corredor, sobre inúmeros pedacinhos de vidro que provavelmente estavam perfurando seu peito e abdômen. A mão continuava estendida na minha direção.
__- Allyson, me dá a mão! – Disse de novo.
__- Não consigo! Se eu soltar uma das mãos, vou cair. Não consigo! – Eu estava com muito mais medo do que antes. O vento era forte e balançava meu corpo. Minhas duas mãos estavam firmes na borda de pedra, e as lagrimas que começavam a aparecer nublavam a minha visão.
__- Consegue sim! Só precisamos de um segundo. Me dá a mão!
__Olhei para o corredor atrás dele. Uma sombra vinha para perto. Uma sombra que tomava forma. A forma de meu irmão. Josh estava parado bem ao lado do corpo de Blake. As mesmas roupas do dia do acidentes, rasgadas e sujas. A expressão de puro ódio. Um enorme pedaço de vidro na mão levantada sobre Blake.
__- Não...Não... – Eu dizia em voz baixa. Não sentia mais medo de cair, agora eu tinha medo de Blake se machucar. Mas se eu soltasse, não conseguiria me segurar apenas em uma mão. Eu lutava comigo mesma, vendo Josh erguer cada vez mais a mão.
__- ME DÁ A MÃO! DROGA! – Blake gritou e no mesmo instante eu dei impulso, soltando uma das mãos da borda de pedra e segurando a mão que ele estendia. Assim que a mão dele se fechou na minha, a outra logo de juntou a primeira e ele me puxou para cima. Quando apoiei um joelho no chão do corredor, Josh não estava mais lá.
__Blake estava sentado no chão, ofegando, com as costas apoiadas na parede do corredor. Eu tremia da cabeça aos pés e olhando para trás, para a queda que me aguardava, comecei a chorar. Chorava como uma criança, e para o meu espanto, Blake esticou um braço e me puxou de encontro a ele. Eu me abracei a cintura dele, e escondi o rosto em seu peito, enquanto sentia seus dedos deslizarem pelo meu cabelo, seu coração bater rápido e sua voz sussurrava que agora estava tudo bem.
__Ficamos assim por alguns minutos, mas logo Blake começou a se levantar, me mantendo colada a ele.
__- Vamos. Não é uma boa idéia ficarmos aqui. – Ele mantinha um braço em torno dos meus ombros enquanto me guiava pelo corredor, de volta ao apartamento.
__Meu choro estava mais controlado quando ele me sentou no sofá e se ajoelhou na minha frente, apoiando a mão na lateral do meu rosto.
__- Você está bem? Se machucou?
__Balancei a cabeça para dizer que não, enquanto minha mão limpava as lagrimas do meu rosto. Eu ainda tremia, mas me sentia melhor. Olhei para Blake. Como eu imaginava, uma série de pequenos cacos de vidro estava enterrados em seu abdômen, e havia um corte grande na palma de sua mão esquerda.
__- Mas você sim. Meu Deus. – Segurei a mão ferida com cuidado, analisando se haviam cacos de vidro ali. – Blake, você precisa cuidar disso.
__- Vou cuidar, depois que souber que você está inteiramente bem.
__As palavras dele me deixaram sem graça e totalmente sem resposta.
__- Estou bem. Só assustada, mas sem ferimentos. Ai. – Gemi quando ele cutucou meu joelho direito. Levantei a barra da calça e achei um pequeno corte ali.
__- Deve ter se cortado quando eu te puxei pra cima. Desculpe. – Ele se levantou, indo remexer as portinhas do armário de mogno.
__- Desculpe? Você salvou a minha vida. De novo! Obrigada.
__Ele apoiou uma caixinha vermelha sobre a mesinha ao lado do sofá, e molhou um algodão com o liquido de um vidrinho. Reclamei com sons de dor e puxei a perna quando ele encostou o algodão no meu joelho.
__- Não seja criança. – Ele segurou minha perna no lugar e voltou a passar o algodão. Depois o deixou sobre a mesinha, e pegou um band-aid que foi perfeitamente colocado sobre o corte. – Pronto. Agora posso cuidar de mim mesmo. – Tirou uma pequena pinça da mesma caixinha, e começou a remover os cacos em seu corpo. Eu havia contado 28 caquinhos quando ele finalmente abandonou a pinça. Aplicou o mesmo liquido em outro pedaço de algodão e espalhou em todos os mínimos cortes, mas nenhum precisou de curativo. Usou o mesmo algodão para limpar a mão esquerda, que teimava em continuar sangrando. Sua expressão era de dor, mas ele nada dizia. Quando terminou de limpar o corte, pegou um rolinho de gaze e começou a enrolar de uma força bem frouxa.
__- Posso? – Não esperei resposta. Tirei o rolinho da mão dele, e comecei a enrolar a mão ferida até que estivesse bem protegida.
__- Obrigado. – Blake olhava o curativo que fiz, abrindo e fechando a mão. – Você é sempre tão azarada assim, ou hoje foi um dia especial? – Ele foi direto.
__- Bom, nos últimos três anos tem sido assim. Pode chamar de azar se quiser.
__- Ou posso perguntar quem era aquele cara. – Ele falava como se comentássemos o mais novo filme que saiu no cinema, enquanto guardava as coisas novamente na caixinha vermelha.
__- O que? – Falei por reflexo. Ele não poderia estar falando do meu irmão. O fato de eu vê-lo por aí, é apenas um truque da minha mente.
__- O cara com roupas rasgadas e uma cara de assassino. Que quebrou o painel e que te puxou pra baixo. – Fechou a caixa, e me olhou. – Que quase soltou uma estaca de vidro da minha cabeça.
__Minha boca estava aberta e eu não lembrava de quando a tinha aberto. Meus olhos estavam arregalados e eu gaguejei.
__- Você...não...ele...eu... – Fechei os olhos por um instante e balancei a cabeça com força. – Não é possível! É um truque da minha mente. Josh...Josh morreu.
__- Então faz todo o sentido. Você tem a ver com a morte do tal Josh, pelo menos na visão dele. – Ele levantou do chão apenas o necessário para se jogar no sofá ao meu lado.
__- O que está dizendo? Isso é loucura. Impossível.
__- Loucura, talvez. Impossível, não.
__- Milhões de pessoas morrem todos os dias, e eu nunca vi ninguém por aí. – Me levantei, mas sem sair do lugar.
__- Por que você não tem ligação com milhões de pessoas mortas. Espíritos só são vistos por pessoas que destruíram vidas. Você destruiu a vida desse cara, seja quem for, por isso você o vê, e por isso ele quer destruir a sua.
__- Mas, você também o viu! – Eu disse.
__- O que só significa que ele não tinha interesse em se ocultar dos outros.
__- Não entendi. – Me sentei novamente ao lado dele.
__- As vidas que destruímos, nós veremos sempre que estiverem por perto. Não há a possibilidade de se ocultarem. Mas com pessoas que não tem nada a ver, eles podem resolver se são visíveis ou não.
__- Isso é loucura... – Escondi o rosto com minhas próprias mãos. – Como você pode saber de tudo isso?
__- Shady. – Foi só o que ele disse. E então me lembrei do que ele dissera antes de tudo isso acontecer.
__- Você... – Algo ficou preso na minha garganta e eu pigarreei. – Você a matou...
__- E você, com sua mania de deduzir coisas, já imaginou que eu, provavelmente a amarrei na cama e a cortei em pedaços. – Seus olhos olhavam para o tédio em uma expressão de tédio.
__- Algo assim. – Me limitei a dizer. Ele riu.
__- Não foi nada disso. A morte da Shady foi minha culpa, mas não foi algo que eu quisesse que tivesse acontecido. – Blake virou o rosto na direção das fotografias, e seus olhos ficaram imóveis sobre a foto da irmã.
__- Vou estar sendo intrometida se perguntar o que aconteceu?
__Ele continuou olhando as fotos em silêncio, mas depois de um tempo, quando eu já iria falar novamente, ele fechou os olhos e sorriu.
__- Sim, vai. Mas eu posso responder. – Blake levantou e foi até a lareira, segurando uma das fotos entre as mãos com um cuidado extremo, como se mesmo uma brisa fosse capaz de tornar tudo em pó. – Éramos gêmeos. Nascemos em um inverno comum na Inglaterra. Nossos pais eram felizes juntos, e só ficaram mais felizes quando nascemos. Nossa família sempre viveu muito bem, então tivemos tudo o que qualquer criança pode desejar. – Blake riu, sozinho. – Uma vez, meu pai comprou um cavalo branco e prendeu um chifre brilhante na testa dele, porque a Shady queria um unicórnio.
__Eu também ri, de leve, prestando a maior atenção na história do passado misterioso de Blake.
__- Todos os anos viajamos nas férias para todo tipo de lugar. Meu pai e eu tínhamos feito o acordo de que se eu fosse bem na escola, eu poderia escolher um país novo pra irmos, até que completássemos todo o globo. – Ele olhou pra mim, com um sorriso sincero no rosto.
__- Isso é legal. – Eu disse.
__- Sim, costumava ser. Menos naquele ano... – Blake olhava agora para o fogo que crepitava na lareira. Triste. – Tínhamos ido ao Caribe, e tudo estava sendo divertido e empolgante. Nós tínhamos 17 anos. Eu queria velejar de novo, naquela tarde. Já tínhamos ficado a manhã toda no mar, mas eu queria mais. Meu pai proibiu. Disse que o mar estava agitado. Quando eles saíram, convenci Shady a ir comigo. Seria mais uma de nossas aventuras. Estava tudo correndo bem, mas o vento ficou mais rápido. As ondas ficaram mais altas e mais constantes. O veleiro não agüentou...
__Eu ouvia essa parte do relato com uma tristeza que eu não sabia bem como explicar. Os olhos de Blake brilhavam com o reflexo do fogo, mas a expressão dele era a imagem da pura dor. Ele continuou.
__- Caímos no mar. As ondas estavam fortes. Eu nadei para longe, não me importava pra que lado, mas só para longe. Eu esperava que Shady fizesse o mesmo, afinal, ela competia em nado desde criança, era ótima nadadora. Eu me afastei do veleiro sem olhar para trás. Mas... – Os punhos dele se fecharam com força, e o sangue do corte manchou a camada externa do curativo. Eu me levantei e cheguei mais perto, mas parei, receando chateá-lo com a aproximação. Seus olhos se fecharam com força, reprimindo as lembranças, mas sem parar de falar. – Shady ficou presa. Seu pé havia se enrolado nas cordas do veleiro e ela não conseguia se soltar. Ela tentou chamar a minha atenção, mas eu não olhei. Eu segui enfrente. O veleiro afundou, e minha irmã foi arrastada com ele. Shady morreu por que eu tive a idéia idiota de velejar. Minha irmã se afogou por que eu não olhei pra trás.
__Eu estava comovida. Era claro demais que Blake fazia um grande esforço para não chorar naquele momento, mas sua voz rouca o denunciava. Eu dei mais alguns passos e o abracei, sem me preocupar com qualquer reação dele. Mas para minha surpresa, Blake me abraçou novamente, com os dedos deslizando pelo meu cabelo.
__- Tudo bem. Tudo bem. – Eu não consiga dizer nada além disso, e isso não parecia o suficiente.
__- Quando meus pais souberam o que aconteceu, e a guarda costeira trouxe o corpo de Shady, meus pais me culparam. Desde o primeiro momento até hoje, eles apontaram para mim e disseram que Shady morreu por minha causa. Eu mesmo já estava me culpando, não precisava que eles também fizessem isso. Tudo ficou pior quando Shady apareceu dizendo que morreu por que eu a abandonei.
__Eu estava chorando. Em silêncio, mas estava. Eu me via no lugar de Blake, e de certa forma eu estava. Pais que o culpam, ele que se culpa, a irmã falecida que o culpa. Eu estava passando pela mesma coisa. Ficamos abraçados por um tempo que não sei dizer se foi longo ou curto, mas, com certeza, significativo. Nenhum de nós falou nada durante esse tempo. Não havia o que ser dito. Mas uma parte de mim estava aliviada. Afinal, Blake não era um assassino psicopata. Ele apenas se envolveu em um acidente. Embora ele se culpasse, e todos o culpassem, eu não via as coisas desse modo. Foi um acidente. Ele foi imprudente em velejar naquele dia, mas não foi o culpado pelo veleiro virar, nem por sua irmã ficar presa. Foi um acidente!
__Por que eu não podia ver minha própria situação desse modo também?
__Eu tremi em um espasmo quando as coisas se ligaram subitamente na minha mente. Meus acidentes não eram acidentes. Minhas visões não eram visões. Josh estava lá mesmo. Josh causou aquelas situações, e pior, continuaria causando, até conseguir o que queria. A verdade me causou pânico.
__Meu irmão estava tentando me matar!
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Continua...
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13 de abr. de 2010

03 - Assassino?!


__Devo ter desmaiado logo em seguida. Não me lembro exatamente disso, mas quando abri os olhos eu tava em um lugar calmo, confortável. Me mexi assustada até perceber que eu estivera, até então, deitada em um cama daqueles modelos luxuosos e fofos. Olhei em volta para um quarto grande, com móveis bem arrumados. A luz central do teto estava apagada, mas um abajur iluminava de forma sinistra. A minha direita havia um sofá escuro que não consegui definir se era de couro ou algum outro material. Atrás dele uma porta levando, ao que imaginei, uma sacada. Bem a minha frente estava uma escrivaninha com um notebook desligado, pilhas de livros e papéis desorganizadamente organizados. Uma estante guardava uma gigantesca coleção de cds e um modelo incrivelmente recente de aparelho de som. A minha esquerda havia uma porta que, estando aberta, me revelava um banheiro, e mais adiante uma outra porta, entreaberta levando ao escuro. Entre as portas, um grande guarda-roupa ocupava do chão ao teto.
__Olhei para mim mesma, ainda estava vestida com as mesmas roupas, a não ser pelos tênis, que logo encontrei ao lado da cama. Eu estava deslumbrada com o quarto, mas assustada por não saber onde eu estava. Deslizei pela lateral da cama até enfiar os pés pelos tênis e me levantar. Cheguei até a porta entreaberta, e estiquei a cabeça para fora. Um pequeno corredor dispunha mais três portas além da que eu ocupava, todas fechadas, e uma fraca luz vinda debaixo me mostrava uma escada. Em passos muito lentos e cuidadosos fui me aproximando da escada, tentando olhar para baixo. Os degraus eram de vidro grosso, levando até um brilhante piso da madeira polida. De onde eu estava, apenas via um tapete cor de vinho. O jeito era descer.
__Eu estava encolhida, assustada, e aos poucos fui descendo. Meus olhos podiam focar novas coisas agora que eu estava na metade da escada.
__Ao pé da escada ficava uma porta, a julgar pela pequena mesa logo ao lado com chaves e algumas moedas, deduzi que aquela seria a porta da frente daquele lugar. O tapete vinho se estendia por uma sala duas vezes maior que o quarto. Um estante comportava inúmeros livros de todos os tipos. Uma porta de vidro no lado oposto da sala estava aberta, mostrando pouca iluminação natural e um forte vento que balançava lindas cortinas de seda branca. Era noite. Pouco atrás da escada uma grande mesa de vidro estava decorada com um vaso de flores artificiais. Na parede à direita, bem no centro, uma lareira estava acessa, o fogo fazia a lenha estalar vez ou outra. No centro de tudo isso uma pequena mesa de vidro sustentava uma série de controles de diversos tamanhos e revistas variadas. Em torno da mesinha um jogo de sofás grandes, no elegante formato em “L”, em tecido preto. Havia alguém meio deitado, meio sentado, no sofá, de costas para a escada. Apenas o fogo da lareira iluminava o local, mas seja quem fosse estava entretido com um grosso livro.
__- Enfim acordou. – Soou alta a voz dele naquele lugar silencioso.
__- Blake? – Reconheci imediatamente a voz.
__- E quem mais poderia ser? – Blake fechou o livro, o deixando sobre a mesinha de vidro. Se levantou sem pressa. Estava de meias, logo vi o par de tênis jogados pela sala, a calça jeans escura caía um pouco na cintura e o pronto principal, ele estava sem camisa.
__- Que lugar é esse? – Tentei não olhar para o abdômen detalhadamente trabalhado.
__- Meu apartamento. – Ele cruzou os braços, em pé ao lado do sofá.
__- ISSO é um apartamento? – Olhei em volta mais uma vez. – É tão grande. – Rapidamente os relatos de Jude me vieram à mente. – Mora aqui sozinho?
__Blake ficou me encarando um tempo, antes de descruzar os braços e começar a recolher seu par de tênis e sua camisa.
__- Moro. – Simples. Grosso.
__- E sua família? Seus pais? Não sei. – Meus olhos estavam presos à ele, e eu esperava que ele não percebesse isso.
__- Inglaterra.
__- Você se mudou pra cá sozinho? – Eu estava surpresa.
__- Sim.
__- Tem como você falar mais de uma palavra de cada vez? – Eu estava ficando irritada.
__- Você faz perguntas demais. Mas me deixe fazer uma. Por que eu deveria responder sobre a minha vida para uma pessoa que eu não conheço?
__Fiquei sem reação diante da atitude dele, e o pior é que ele tinha razão. Encontrei minha bolsa e livros sobre uma cadeira e logo me dirigi até eles. Definitivamente não se podia ter uma conversa com esse garoto.
__- Me leve pra casa. Eu não pedi pra ser trazida até aqui.
__Blake se levantou com calma e indiferença.
__- Certo. Eu levo. A propósito, são quatro horas da manhã.
__- O QUE? – Parei antes de chegar à cadeira. Blake apontou um grande relógio estilizado sobre a lareira. Os ponteiros mostravam exatamente quatro horas e quinze minutos. – Ai meu Deus. Vão me matar...Meus pais... – Eu estava ficando descontrolada.
__Blake suspirou, como as pessoas suspiram quando não tem paciência para fazer ou ouvir alguma coisa, mas não querem dizer as palavras. Olhei para ele quando ele enfiou a mão no bolso da calça e tirou o meu celular, o jogando sobre o sofá mais próximo de mim.
__- Eu mandei uma mensagem para o celular da sua mãe, em seu nome, dizendo que ia dormir na casa da sua amiga Jude, para terminarem um trabalho.
__Fiquei surpresa com essa atitude. Peguei o celular do sofá e o guardei em meu próprio bolso. Havia mil coisas que eu poderia dizer agora, mas eu realmente escolhi a pior.
__- Por que?
__- Você desmaiou. Não estava machucada para ter que ir ao hospital. E apesar de metade da universidade saber quem é você, ninguém fazia a menor idéia de onde você morava. Não sou tão insensível, Allyson.
__- Ally. – Corrigi. Por que fiz isso? Me perguntei na hora. Não deixo estranhos me chamarem assim.
__- O que? – Ele perguntou.
__- Me chame de Ally. E...Obrigada, por ter mandado a mensagem, e por...me trazer para cá. – Droga, eu podia sentir que meu rosto estava esquentando.
__- Não vamos ficar eternos coleguinhas só porque eu tirei você da frente de um ônibus.
__Aparentemente, Blake era perito em destruir climas e humores. Sentia meu rosto ficar mais quente, mas agora era de raiva. Comecei a andar pela sala, evitando olhá-lo, na tentativa de me acalmar. Quando passei pela lareira, meus olhos pararam em uma fileira de porta-retratos com fotos variadas. Uma foto era de um casal numa paisagem de inverno, estavam abraçados e felizes. Na seguinte, o mesmo casal, agora um pouco mais velho, abraçava um garotinho que vestia um uniforme sujo de futebol.
__- É você? – Eu sorria.
__- E meus pais. – Não me virei para olhá-lo.
__Continuei olhando as fotos. As duas posteriores eram mais recentes, de Blake com amigos, pelo que entendi. As três últimas, por alguma razão, me incomodaram. Estavam em porta-retratos maiores e muito mais bonitos. Duas delas eram uma garota loira, bonita, de olhos claros e com corpo de modelo, que sorria para a câmera quase como um anjo. A terceira foto, sem duvida a que mais incomodava, era essa mesma garota, com Blake. Estavam sentados no chão, perto de uma árvore de natal, sorriam como bobos, ela enrolava um cachecol no pescoço dele e ele a abraçava. Só podia ser a namorada dele.
__Me virei para fazer essa pergunta à ele, mas assim que fiz isso, vi que Blake estava abrindo as cortinas da sacada, e por isso estava de costas para mim. Vi claramente a tinta preta na pele clara. Uma palavra. Um nome. Um nome de mulher.
__ “Shady”
__Falei para mim mesma.
__Estava ficando irritada novamente.
__- Linda sua namorada. Você gostar muito dela, mas por que ela não está aqui com você? – Minha voz era aguda, atropelando as palavras.
__- Namorada? – Blake abandonou as cortinas e se virou pra mim.
__- É. Só pode ser sua namorada, certo? Você tem muitas fotos dela, e aposto que esse nome tatuado aí é o nome dela.
__- Sim. É o nome dela. – Ele apontava para as fotografias. Com poucos passos ele se aproximou de mim, deslizando a mão pelo meu cabelo. – Está com ciúmes da garota, Allyson? Que menina meiga você é.
__Dei um tapa na mão dele para afastá-la de mim e disse com rispidez:
__- Não seja idiota. E guarde esse papinho pra essa sua namorada. – Saí batendo o pé pela sala, decidida a sair dali, mesmo que fosse tão tarde.
__- Mais uma coisa para a lista. Allyson Carter deduz coisas sozinha, e passa a acreditar religiosamente nessas coisas. – Ele quase ria.
__- O que disse? – Parei.
__- Você viu fotos de uma garota, e deduziu que ela era alguém importante. Viu uma foto da mesma garota abraçada à mim, e deduziu que éramos um casal. Viu um nome nas minhas costas e deduziu que era o nome dela. Ao ver o nome, deduziu também que eu a amo loucamente. A partir de tudo isso ficou incomodada o suficiente para levantar a voz pra mim.
__- Onde quer chegar?
__- Bom, de todas as suas deduções, só acertou duas. É o nome dela, e eu a amo loucamente.
__- Então sejam muito felizes, você e a tal Shady. – Novamente dei as costas.
__- Shady é a minha irmã. – Ele falou com a voz séria e grossa.
__- Como é? – Eu duvidava.
__- E está morta. – O golpe final.
__Diante da expressão de Blake eu sabia que não era mentira, que a garota era sua irmã, e que havia morrido. Minha boca se abriu para falar, mas nada saiu.
__- Como...? – Comecei a dizer, mas minha voz sumiu novamente.
__Apenas uma palavra foi o suficiente para que Blake entendesse o que eu iria perguntar.
__- Eu a matei!
__Meus olhos se abriram em total espanto e choque. Minhas mãos tremiam. Minhas pernas denunciavam que não suportariam mais o peso de meu próprio corpo. Não podia ser verdade!
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Continua...
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6 de abr. de 2010

02 - Acidente!


__Não o vi mais. O tal Blake. Nem naquela noite, nem no resto da semana. Parte de mim dava graças por isso, mas outra parte, com certeza a menor, queria vê-lo novamente.
__Durante toda a semana Jude apontava para cada garoto na universidade e perguntava: “É ele?”. Ainda não sei porque fiz a insanidade de contar a ela o que tinha acontecido. Jude era assim. Bastava eu olhar na direção de um homem, que ela já escolhia o vestido pro batizado de nossos filhos. E com Blake, ela ficou particularmente interessada. Ou faria de tudo para me juntar com ele, ou iria querer que ele fosse dela própria. As duas idéias me incomodavam. Blake era bonito, verdade, mas ainda sim era um imbecil arrogante.
__Era segunda-feira novamente. Exata uma semana depois que o conheci, e um dia, pra mim, sinônimo do inferno. Era o terceiro aniversário da morte de Josh.
__A manhã foi passada no cemitério. Acomodando dúzias de flores e limpando sua lápide. A tarde foi o pior, todos indo e vindo de nossa casa para dizer o quanto sentiam pela morte dele e o quanto ele ainda fazia falta. Achei ótimo quando o sol começou a se pôr, o que significava que eu deveria ir para a universidade.
__Não estava com a mínima vontade de me arrumar, então apenas vesti o jeans mais básico, o tênis mais confortável e uma blusa leve. Deixei o cabelo solto e não me preocupei com a maquiagem. Jude queria me forçar a voltar para dentro e me arrumar “decentemente”, mas eu me recusei e ela desistiu, ligando o carro e nos levando para a universidade. Saí com pressa de casa, fugindo, e não comi nada. Por algum motivo, Jude também não tinha parado para jantar. Decidimos ir para a praça de alimentação antes da aula. Estamos sentadas comendo e conversando.
__- Ally, aquele homem não para de olhar pra nós. – Jude disse, com os olhos focados além de mim.
__- Que? Que homem? – Me virei e vasculhei um local parcialmente lotado de pessoas. Não notei ninguém em particular.
__- Ali. Encostado no corrimão da rampa do pátio, de preto.
__Imediatamente meus olhos foram levados para a direção que Jude indicara. Parei por um momento sobre o corpo de academia e muito bem vestido daquele homem que sorria com o que defini como cinismo. Dei as costas e voltei a comer.
__- Blake Ryder. – Falei baixo e sem interesse.
__Assustei quando Jude bateu ambas as mãos na mesa, fazendo tudo balançar e os copos quase virarem, ficando em pé com uma expressão que misturava choque e surpresa, se é que a diferença entre as duas.
__- Aquele é ele? – Jude quase gritou.
__- Aquele é ele. – Me escondia das pessoas em volta que nos olhavam pensando se éramos loucas.
__- Ai meu Deus! Ele é LIN-DO. Allyson, como pode chamar essa perfeição humana de arrogante? – Eu não precisava olhar para cima para saber que Jude olhava, à distância, cada centímetro do corpo de Blake.
__- Se importa se voltarmos para a sala? Já terminei de comer. – Me levantei e pretendia seguir na direção da reitoria. Certo, seria uma volta maior até minha sala, mas evitaria a rampa do pátio. Mas Jude me agarrou pelo braço e puxou para o outro lado.
__- Vamos por aqui!
__- Jude, não! – Tentei pará-la, em vão.
__A pressão de Jude em se insinuar na frente de Blake foi tanta que acabou fazendo com que eu pisasse no pé dele. Não me importei e desci metade da rampa. Foi à voz dele que me parou.
__- Você pisa no pé de alguém e não se desculpa? Depois dizem que os homens é que são grossos.
__Parei e me virei. Jude estava radiante por deduzir que ficaríamos ali conversando alegremente com ele. O sorriso vencedor no rosto dele me irritava, e os braços cruzados na pose superior me incomodavam. Eu sentia uma necessidade vital de desmanchar essa pose.
__- Você não é um homem! – Falei.
__- O que? – O sorriso sumiu por completo. Venci. Mas a expressão que surgiu no rosto dele começava a me preocupar. Vamos Allyson, pense. Saia dessa sem perder.
__- Você é um muleque.
__O silêncio ficou entre nós. Jude olhava de um para outro, curiosa, interessada, não sei dizer. Blake me encarava com olhos frios e a expressão séria. Eu o encarava com indiferença, tentando esconder o receio que tinha do que ele pudesse fazer comigo.
__- Posso perguntar quantos anos você acha que eu tenho? – Ele disse, sem humor.
__- Não sei. – Cruzei os braços e minha expressão se tornou uma máscara de puro sarcasmo. Dei de ombros e revirei os olhos. – Trinta, talvez?!
__Ele não se manifestou. Era como se tivesse sido congelado de uma hora para outra. Levou certo tempo até que ele descruzasse os braços e desencostasse do corrimão, dando dois passos em nossa direção. Recuei dois passos por puro instinto, e essa minha reação pareceu divertir Blake. O canto direito de seus lábios se levantaram, naquele típico meio sorriso. A mão direita dele encontrou meus cabelos na altura dos olhos e os levou até atrás da orelha.
__- Você é uma graça, não é?! – Blake falou baixo. Logo enfiando ambas as mãos nos bolsos da calça. – Mas você errou.
__Blake passou por mim e desceu o que restava da rampa sem olhar para trás.
__- Quantos?
__- Quantos, o que? – Enfim ele parou e se virou.
__- Quantos anos você tem?
__Blake riu. Um riso baixo, mas sincero. Um riso charmoso e perigoso. Um riso convidativo.
__- Menos de trinta. Mais de trinta. Tanto faz. – Deu as costas e seguiu cruzando o pátio até a pequena escada de seis degraus que levava até o nível térreo das salas.
__Certo. Conversei com o garoto duas vezes na minha vida e a existência de Blake já me irritava além dos limites.
__- Ficou louca? – Jude quebrou meus pensamentos.
__- O que? – Estava era confusa.
__- Ele é perfeito, Allyson! – Os olhos de Jude pareciam brilhar.
__- Acho que você é que está louca. – Desci o resto da rampa e saí vagando pelo pátio com Jude atrás de mim.
__- Ele é bonito. Meu Deus, se é. Se veste bem. Aquelas roupas são de grife, então ele é rico. É misterioso, e isso o deixa charmoso. Nossa, esse homem não existe!
__- Você esqueceu de dizer que ele é um completo idiota arrogante e convencido.
__Finalmente o sinal encerrou o assunto. Me virei para a pequena escada, como todos os outros alunos que vagavam pelo pátio em suas rodinhas de amigos. Jude ficou pra trás.
__- Você não vem? – Perguntei.
__- Não. Tenho algo muito mais importante para fazer agora. Ally, pegue meu caderno na bolsa e me jogue pela janela, certo? Te vejo daqui uma hora e meia, no intervalo.
__Não fiz perguntas. Seria inútil. Jude gostava de manter seus segredos em segredo até que cada mínimo detalhe estivesse em perfeitas condições. Entre na aula e lhe passei o caderno pela janela. Na hora seguinte me concentrei na aula, e na meia hora final estava morrendo de sono. O sinal do intervalo soou e as turmas foram liberadas. Como de costume, deixei os livros na sala e rumei para as fileiras de cadeiras ao pé das escadas. Nosso lugar preferido, de onde podíamos ver tudo e todos. Eu já esperava ver Jude ali, e lá estava ela. Aparentemente encerrando uma conversa com um homem que eu não me lembrava de conhecer. O homem esboçou um educado sorriso quando me viu chegando, e logo se afastou. Tomei meu lugar nas cadeiras e Jude parecia pronta para explodir.
__- A perfeição não existe, mas a realidade é ainda melhor. – Ela disse, quase se jogando em mim.
__- Do que está falando? – Ela estava me assustando.
__- Aqui. – Jogou o caderno aberto no meu colo. Sua letra caligrafada em várias páginas. – É bom ter muitos contatos. As histórias correm.
__Passei os olhos aleatoriamente pelas palavras, sem me ater ao detalhes. Não levei muito tempo para perceber do que se tratava tudo aquilo.
__- Investigou a vida do Blake?!
__- Claro que sim. O cara é um total mistério, mas alguns sabem de umas coisas. Falei com umas 20 pessoas e está tudo aí. Leia.
__Comecei a ler os relatos que Jude havia feito, mas não cheguei nem ao final da terceira linha quando ela arrancou o caderno de minhas mãos.
__- Esqueça. Vai demorar pra ler. Eu resumo. O nome dele é Blake Ryder.
__- Sei disso.
__- Está no quarto ano de Química.
__- Também sei disso.
__- E sabe que ele mora sozinho? – Jude sorria.
__- Não. Disso não sabia. – Respondi. Vencida.
__- É o que dizem. Ninguém confirma isso, mas é o que tudo indica. Quando perguntam sobre a família dele, ele sempre responde “estão por aí”.
__- O que mais descobriu? – Comecei a me interessar.
__- Ele é incrivelmente oposto.
__- Tipo bipolar? – Perguntei.
__- Tipo dois lados de uma mesma moeda.
__- Jude, não entendi.
__- Ele tem esse jeito rebelde. Não costuma copiar a matéria ou resolver os exercícios. Mal fala com as pessoas da sala dele. Mas na semana inteira não errou absolutamente nada sobre as aulas de laboratório. E eu descobri que ele foi transferido com média nove e meio.
__- Está querendo dizer que o garoto é um total desinteressado que tira dez? – Sugeri, quase rindo.
__- Exatamente! – Jude gritou, sorrindo. – Mas tem algo que não estava nos planos.
__- O que?
__- Bom, parece que no meio da semana passada aconteceu um acidente no laboratório e quase todos ficaram sujos ou algo assim, e ele resolveu trocar de camisa, tirando a suja.
__- E qual é o problema? – Eu não via problema nenhum em um cara trocar uma roupa suja por uma limpa.
__- Uma das meninas, declaradamente interessada nele, disse ter visto uma tatuagem nas costas dele. Um nome. Um nome de mulher. – Jude sussurrava, segurando minhas mãos e se inclinando na minha direção.
__- Pode ser o nome da mãe dele. – Sugeri.
__- Ou namorada. Noiva. Esposa. – Jude arregalava os olhos a cada palavras.
__- Qual é? Está ficando paranóica. – Me levantei. Encarei Jude de longe, com as costas viradas para as escadas do primeiro andar. – Você já está fazendo suposições sobre o cara? Não sabemos nem de onde ele foi transferido.
__- Inglaterra. – A voz veio de trás de mim, de muito perto. Quase gritei com o susto. Me virei e ali estava Blake, em pé na escada, nos olhando.
__- Olha, você precisa parar com esse negócio de aparecer do nada. – Apontei o dedo para ele.
__Blake desviou os olhos de mim para Jude, e de volta pra mim.
__- Que negócio é esse de investigar a minha vida? – Ficamos sem fala. Não tínhamos como negar isso. Ele tinha me ouvido falar. Ele tinha ouvido.
__- O que você quis dizer com Inglaterra? O que tem a ver? – Tentei sair pela tangente.
__Blake suspirou e revirou os olhos, encostando um dos ombros na parede da escada, focando os olhos em mim e em Jude.
__- É de onde eu vim. Você estava falando sobre não saber de onde eu vim. Eu apenas lhe respondi.
__- Você veio da Inglaterra?! É inglês? – Eu disse.
__- As pessoas que nascem na Inglaterra costumam ser ingleses. – Lá vem o sarcasmo idiota dele de novo. – Se querem saber sobre mim, perguntem.
__- Quantos anos tem? – Perguntei diretamente, sem desviar os olhos dos olhos dele.
__- Vinte e dois. – Ele respondeu assim que falei.
__- Fala sério? – Jude se meteu.
__- Sim. Falo sério.
__Eu pretendia continuar o diálogo, ou devia chamar de questionário? Mas um grupo de homens vinha pelas escadas conversando animadamente, e começavam a falar com Blake.
__- Ryder, você vem? – Dizia um.
__- Deixa o cara aí. Ele está bem acompanhado. – Brincava outro.
__- Já vou. – Blake apenas virava o rosto para eles, sem mover nenhuma outra parte do corpo. Assim que todos desceram e passaram por nós, Blake também terminou a descida e parou diante de Jude. – Um erro em sua investigação, Jude Harrison, não sou tão anti-social. Até outra hora Allyson Carter.
__Ficamos mudas diante do jeito de Blake e não desviamos os olhos enquanto ele e seus aparentes amigos saiam pelos portões da universidade para a rua.
__- Como ele sabe os nossos nomes? – Jude perguntou, e eu não sabia responder.

__Me enfiei em minha sala o resto do intervalo. Não queria encarar Blake novamente. A situação já havia ficado desconcertante o suficiente até então. O intervalo passou e todos os alunos voltaram à suas salas. A última aula correu tranqüila, e a saída foi normal. Mas havia um problema. Um dos irmãos de Jude havia ligado e pedido o carro. Jude foi embora no meio da aula, e eu fiquei. Agora teria que ir para casa de ônibus.
__Saí pelos portões da frente, e esperava o semáforo dos carros indicar a luz vermelha para que eu atravessasse. A luz vermelha se acendeu e eu comecei a cruzar a rua. Estava na metade na travessia quando a buzina alta disparou diversas vezes, e os gritos começaram a prever o que aconteceria a seguir. Me virei apenas para ver os faróis do ônibus que vinha em minha direção sem controle. Soltei os livros que trazia nas mãos, mas não consegui correr. Algo me segurava no meio da rua. Alguém estava me segurando ali.
__- Josh...
__Eu não via ninguém, mas sentia que estava sendo segurada.
__Tudo isso levou menos de cinco segundos, e quando eu começava a ter certeza que seria o meu fim, alguém me empurrou para fora da rua.
__O ônibus bateu em um poste na esquina. Estava vazio a não ser pelo motorista que saíra ileso e agora corria para ver se não tinha ferido ninguém. Eu estava desnorteada. Olhando em volta. As pessoas se juntavam e corriam para ver o que tinha acontecido, mas tudo estava mudo para mim. Eu via as pessoas falando, mas eu não ouvia. Meus olhos pararam no poste onde o ônibus acabara de bater. Alguém me olhava dali. Alguém que não se mexia, nem falava. Alguém que não devia estar ali. Pisquei, e esse alguém sumiu. O som voltava aos poucos. As vozes estavam longe, muito longe, e aos poucos ficavam mais altas. Alguém estava falando comigo. Perguntava se eu estava bem. A voz foi ficando mais alta. Dizia meu nome. Mais alto. Mais alto.
__- ALLYSON!
__Virei o rosto e me deparei com os olhos verdes de Blake.
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Continua...
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2 de abr. de 2010

01 - Aluno Novo!


__Algumas pessoas passam por muitos contra-tempos, outras sofrem de má sorte ou azar, e poucas experimentam situações que não podem ser classificadas nessas categorias. Eu, com certeza, sou uma dessas poucas pessoas.
__Meu nome é Allyson Carter, Ally para os amigos e familiares. Tenho 19 anos e estou no segundo ano do curso de história da Universidade LaTiere, em Nova York. Moro com meus pais em uma casa comum, em um bairro comum de pessoas comuns. Minha principal característica é uma compulsão por literatura. Toda história começa com algum fato traumático, certo? No meu caso, aconteceu há 3 anos.
__Eu costumava ser a filha mais nova, e meu irmão Josh era o filho preferido. Cursava medicina na Universidade, jogava baseball na liga juvenil, tinha ótimas notas, um excelente emprego no hospital e dezenas de amigos que aos finais de semana invadiam nossa casa com musica alta e bebida. Josh me irritava com toda sua perfeição. Nunca nos demos bem. Nunca. Há algum tempo ouvi a história de que quando eu tinha alguns dias de vida, Josh me tirou do berço e me colocou no lixo. Meus pais foram me pegar, claro, e quando questionaram os motivos de Josh, ele disse: “Não quero esse ratinho em casa.”
__Não brigávamos. Seria inútil e não levaria a nada. Então passamos nossas vidas nos ignorando, evitando ao máximo qualquer aproximação ou diálogo. Até aquela noite, três anos atrás:

__- Mas mãe, todos os meus amigos estarão lá. Como posso ser a única a ficar de fora? Você sempre diz que tenho poucos amigos, mas me impede de arrumar novos! – Eu estava arrumada para sair para a festa mais badalada do ano em minha pequena escola, mas aparentemente eu não poderia ir.
__- Ally, eu não sei nada sobre isso. Onde é? Não conheço os pais da garota. E como pretende chegar até lá? – Minha mãe dizia.
__- Não é longe, mãe. E claro que conhece os pais dela. Os conheceu na feira de ciências semestre passado. Vocês poderiam me levar até lá.
__- Allyson, se permitirmos que vá, terá que fazer muita coisa em casa para retribuir. – Meu pai começava a falar, sem largar seu precioso jornal.
__- Farei, pai. Farei tudo o que me pedirem. – Eu começava a ficar animada. Foi quando meu irmão desceu chacoalhando as chaves da moto.
__- Josh. – Meu pai chamou. – Você vai levar sua irmã até essa tal festa.
__- O que? – Acho que foi a primeira vez nos meus, até então, 16 anos, que eu e Josh falávamos a mesma coisa, ao mesmo tempo.
__- Pai, vou sair com uns amigos. – Josh argumentava.
__- Seus amigos podem esperar, Josh.
__- Não, não podem. Temos reservas com horários.
__- Josh, querido, faça este favor á nós. – Minha mãe com seu jeito doce e mimado que sempre usava com o filho predileto.
__Josh atendeu à vontade de nossos pais e me levou a festa. Antes de sairmos ligou para os amigos e disse que não poderia ir, então sussurrou coisas que mais ninguém pode ouvir. Subi em sua moto e os segurei pelos ombros. Sua direção costumava ser rápida, mas desta vez estava pior. Chegamos até a festa e eu desci da moto.
__- Então...Obrigada pela carona.
__- Eu fui obrigado.
__Nem tive tempo de retrucar seu mau humor, ele já estava disparando para longe da casa. Ora, o problema era dele então. Josh não iria estragar minha noite perfeita. Entrei na festa e lá fiquei até cerca de 2 horas depois, quando meus pais ligaram. Eu podia ouvir minha mãe chorando aos gritos no fundo, e a voz tremula e grave de meu pai me dizendo:
__- Josh sofreu um acidente de moto.
__Um amigo me deu carona até o hospital que meu pai havia indicado, e lá eu fiquei sabendo dos fatos. Josh andava rápido e em um cruzamento quando o semáforo mostrou a luz vermelha, ele não parou, quando um caminhão daqueles que se usa em construções para misturar concreto vinha pelo cruzamento. Meu irmão foi atingido em cheio e jogado vários metros em grande velocidade até que parou com os restos da moto por cima dele.
__Meu irmão mais velho, Josh Carter, aos 23 anos de idade, e a duas semanas de sua formatura na universidade, com um futuro brilhante pela frente, faleceu naquela noite porque eu não podia perder a fútil festa colegial de pessoas falsas que eu no fundo detestava.

__Já se passaram 3 anos desde sua morte, mas as coisas mudaram pouco. Meus pais jamais verbalizaram que me culpam pelo acidente, mas eu sei que culpam. Sei pelos olhares repreensivos sem motivo aparente. Sei pelos olhos chorosos de minha mãe sempre que olha para mim. Sei pelas comparações que meu pai sempre faz entre eu e Josh. E sei porque eu mesma me culpo por isso, então por que eles não culpariam?
__O quarto de Josh foi trancado e permanece exatamente como ele o deixou há 3 anos. Seus velhos amigos ainda vêm até aqui no aniversário de sua morte trazer flores para meus pais e para me olhar “de canto”. Eu, por minha vez, terminei o colegial, passei para a universidade em boa colocação, e nestes dois anos de curso tenho me saído muito bem. Tenho um emprego de meio-expediente no banco central e bons amigos com quem posso contar. Me tornei tudo o que Josh era, mas nem assim recebi a mesma atenção que ele.
__Eu disse que poucas coisas mudaram. Só houve uma coisa que passou a ser habitual e que me perturba de forma assustadora.
__Sempre fui cuidadosa. Olho bem antes de atravessar as ruas, desço escadas olhando os degraus para prevenir quedas, nunca me debruço em janelas ou sacadas, todas essas pequenas coisas que significam segurança. Mas desde a morte de Josh que incontáveis situações me causaram ferimentos que tive sorte em sair viva. Conhecidencia? Talvez seja. O que me assusta é que em todas essas situações, quando me recupero do susto e dou uma olhada em volta, entre as pessoas que me olham assustadas, tenho a vaga impressão de ver meu irmão parado a alguns metros, me olhando de longe, porém quando eu pisco e volto a olhá-lo, não há nada. Costumo atribuir isso ao susto dos acidentes e o trauma de ser subliminarmente responsável pela morte dele.
__Bom, as férias de verão acabaram agora. Estou voltando para a universidade. Hoje é o primeiro dia de aula do segundo semestre e estou aqui sentada no banco do carona do carro de minha melhor amiga, sorrindo educadamente sobre qualquer que seja o assunto que ela esteja tentando me repassar de uma forma tão animada.
__- Ally? – Jude dizia pela, talvez, enésima vez. – ALLYSON!
__- O que foi? Não precisa gritar. – Eu colocava minha bolsa no ombro, seguindo com ela do estacionamento até as escadas da entrada.
__- Parece que preciso. Estou de chamando faz tempo e você aí com cara de nada. – Os saltos do sapato novo de Jude ecoavam na escada. Ao menos descobri qual era o assunto que ela falava tanto no carro. Provavelmente me contava sobre suas compras no verão.
__- Que tipo de expressão é “cara de nada”? – Passei o pequeno cartão no leitor óptico e a catraca da universidade emitiu um rápido “bip”, e eu passei.
__- Tanto faz. Eu estava dizendo, Ally, que mal posso esperar para ver os alunos novos!
__- Da nossa turma? – Perguntei, focando os olhos no longo corredor dos fundos da universidade.
__- Também. Mas de toda universidade. Não está animada também? Pode achar um garoto incrível pra você.
__- É. – Lá ia eu, me desligando de novo.
__- “É”. Allyson, acorda menina. O que te deu?
__- O aniversário da morte do Josh é na próxima semana. – Fazíamos a curva perto dos banheiros, chegando ao pátio principal.
__- Eu tinha me esquecido. Sinto muito.
__- Não se preocupe. Afinal, onde será nossa sala este semestre? – Olhei em volta. Havia algumas salas no andar térreo da universidade, embora houvessem vários outros andares de salas.
__- Na mesma sala do semestre passado.
__Ótimo. Ainda estávamos no térreo. Isso era bom. Não gosto da idéia de ter que ficar usando escadas entre as aulas. O que me chocava agora era que a desligada e fútil Jude Harrison sabia de algo que aparentemente ninguém sabia.
__- Como sabia sobre a sala? – Entravamos cumprimentando os poucos amigos que já haviam chegado.
__- Eu perguntei na secretaria na semana passada quando trouxe os papéis da matricula do semestre. – Jude abandonava sua bolsa na cadeira ao lado da minha.
__- Ah, droga. – Bati em minha própria testa.
__- O que foi?
__- Os papéis. Eu não entreguei. – Mexia freneticamente em minha bolsa, entre os livros.
__- Então vai. Hoje é o ultimo dia pra isso.
__- Caso a aula comece, por favor assine meu nome na chamada.
__Não fiquei para ouvir a resposta de Jude. Saí correndo da sala antes que o professor me pegasse saindo no meio de sua aula. No caminho para a secretária encontrei conhecidos de outros cursos e fui breve nos “oi”, “como vai?”.
__A secretaria da LaTiere ficava aberta diante da praça de alimentação, e uma pequena fila ocupava o caminho entre as mesas, com alunos que como eu não haviam entregado a papelada exigida. Com minha sorte a fila foi rápida e logo estava livre dos papéis. Ia saindo da praça de alimentação quando, na curva me choquei com alguém.
__- Nossa. Desculpa. – Fui logo dizendo.
__- Tudo bem. Não machuquei você? – A voz de um homem.
__- Não. – Olhei enfim para ele. Se me conheço, fiquei com as bochechas vermelhas imediatamente. Diante de mim estava um rapaz bem alto, teria mais de 1 metro e 90, talvez quase chegasse á 2, o cabelo loiro era curto e estava bagunçado e molhado, coisa que fazia alguns fios mais compridos atrapalharem a visão de um par de olhos verdes. O garoto se vestia casualmente com um jeans escuro e uma camiseta preta sem desenhos que não escondiam braços muito bem malhados. Diante do meu silêncio, ele continuou falando.
__- Certo. Então tenha mais cuidado por onde anda. – A voz dele era grave, masculina, mas ao mesmo tempo era baixa, quase um sussurro. Por alguma estranha razão me lembrei daquele filme em que o telefone toca e uma voz exatamente assim diz que você vai morrer em sete dias.
__- Como é?
__- Ficar fazendo curvas sem olhar por onde anda...Você vai acabar machucando alguém, Criança.
__Pronto! O príncipe encantado se mostrou um grande idiota em duas frases.
__- Pareço uma criança pra você? – Cruzei os braços.
__- Ahn...Parece, por isso te chamei assim.
__- Você é um idiota. – Contornei o garoto e segui pelo corredor. Ele aparentemente me seguiu.
__- Pode me ajudar a achar minha sala?
__- Você não me conhece, me trata com grosseria e me pede ajuda? – Continuei andando. – É bipolar por acaso?
__- Não. Só quero ajuda.
__Parei e olhei pra ele. Droga, aquele olhos verdes estavam influenciando muito.
__- Está bem. Que curso faz?
__- Química. – Ele respondeu, sorrindo. Meu deus, que sorriso...
__- Primeiro ano?
__- Quarto.
__- Veio transferido? – Perguntei.
__- Acho que esse é o único jeito de um aluno novo estar em um ano que não seja o primeiro.
__Virei e voltei a andar. Ele correu e me segurou pelo braço.
__- Espera. Vamos, admita, sua pergunta foi desnecessária.
__- Você deixa péssimas primeiras impressões. Vem logo. – Comecei a subir a escada para o primeiro andar. – Qual seu nome?
__- Por que quer saber? – O garoto olhava em volta cada pedaço das paredes. Uma das mãos segurava a alça da mochila no ombro, e a outra se escondia no bolso da calça jeans.
__Aproveitei suas distrações para olhá-lo melhor. Não havia notado mas uma pequena argola de prata balançava em sua orelha esquerda. O garoto tinha jeito daqueles caras que bancam os machões o tempo todo.
__- Eu só queria saber. Não precisa dizer se não quiser.
__- Claro que não preciso. – A arrogância dele começava a me irritar.
__- Pronto. Sua sala é essa. Não vá esquecer e se perder por aí.
__- Certo. – Notei que ele já abria a porta.
__- Não vai me agradecer?
__- Por me trazer até a sala de aula?! Não faz sentido agradecer por isso. – Ele parecia verdadeiramente chocado com a idéia de me agradecer.
__- Divirta-se no primeiro dia. – Dei as costas e comecei a voltar pelo corredor até as escadas.
__- Blake. – Ele gritou.
__- O que? – Me virei, confusa.
__- O meu nome. – Não disse mais nada. Entrou na sala e fechou a porta.
__Fiquei parada no corredor ainda alguns segundos, e voltei até a porta da sala dele, onde uma folha de papel listava os alunos da sala em ordem alfabética. Corri os olhos pelos nomes até chegar à letra B, e não foi difícil achar o único garoto com esse nome.
__- Blake Ryder... – Sussurrei sozinha no corredor.
__A porta se abriu e Blake estava bem ali.
__- Ainda aqui? – Me perguntou. Eu estava envergonhada e surpresa, por isso não respondi. – Já sei. Não agüentou de vontade de me ver de novo. Como você é fácil. Dez minutos de conversa com um estranho e já fica seguindo o cara?
__- Quem você acha que é pra... – Me interrompi quando ele se aproximou e estendeu o braço perto da minha cabeça. O tipo de pose que os homens usam pra prender uma mulher entre seus braços e a parede para mantê-las lá.
__- 7. Gosto desse número. – Ele sorriu, se afastou e entrou novamente na sala.
__Fique ali, totalmente confusa. O que tinha sido aquilo? Me virei e vi que a lista com os nomes estava bem atrás de mim, e que Blake Ryder era o sétimo da lista. Fiquei imediatamente irritada. Que desgraçado. Fazer toda aquela pose apenas pra olhar seu próprio nome da lista de chamada? Ele podia ter pedido que eu saísse da frente, ou sei lá, mas não tinha porque me segurar daquele jeito!
__Segui o corredor até as escadas e desci para minha própria sala. Entrei e sentei em meu lugar, batendo os livros para acompanhar o resto da aula. Jude logo me passou um pedaço de papel dobrado:
__ “O que aconteceu lá fora?” – Dizia a letra de Jude.
__ “Alunos novos são uns imbecis!!!” – Rabisquei com raiva e devolvi o bilhete.
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Continua...
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